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O que seria do carnaval de São Paulo sem os dirigentes folclóricos?

 

Por Fábio Parra

Se sua escola de samba nunca teve um dirigente folclórico, desses que marcam a história do carnaval com gestos, frases, estilos, carisma e polêmica, desculpe… Você tem menos histórias pra contar!

Nesses 40 anos vivendo o carnaval de perto, já vi presidente que tem a escola com o seu próprio nome (como o seu Nenê, da Vila Matilde e o seu Leandro, de Itaquera), já vi presidente com estilo único (como o Seu Juarez de gorrinho, bengala e charuto puxando a Mocidade Alegre, brincando como folião). Ou ainda a in-com-pa-rá-vel Dona Guga, do Morro da Casa Verde, que todo ano vem à frente da escola que seu pai fundou, sambando no pé e chamando todos para viver com ela a emoção de passar mais uma vez com sua escola.

Na hora de defender a escola de uma injustiça, presidentes podem se tornam leões, impossíveis de serem contidos. Foi na apuração de 1986 que, ao ler a nota 5 que o maestro Júlio Medaglia deu para o lindo samba da Camisa Verde e Branco, que Carlos Alberto Tobias, o Tuba, invadiu a mesa apuradora e rasgou as notas. A confusão fez a apuração ser suspensa, voltando somente no dia seguinte. Quatro meses depois, as escolas do Primeiro Grupo fundaram a Liga-SP, desligando-se da UESP.

Outro feroz defensor de sua agremiação é Sidnei Carrioulo, da Águia de Ouro, que em 2006 não admitiu ouvir o nome de sua escola ser anunciado errado pelo locutor Sabu: primeiro, ele anunciou Unidos de Vila Maria. Ao tentar corrigir, pronunciou “Vem aí, ‘Aguias’ de Ouro!” O presidente não perdoou, pegou o microfone e gritou para o mundo ouvir: “Águias” é o caralho! Mais respeito com a nossa escola! Pode zerar essa merda de cronômetro agora!!! E assim se fez… O presidente simplesmente representava o sentimento de sua escola. Acredito que muitos de nós faria o mesmo! E olha que o Sidnei foi até contido, porque pelo que conheço ele poderia até ter subido na Torre 1!

Também já tivemos presidentes que enfrentavam problemas de desfile desviando ou diminuindo a gravidade das coisas: em 2006, todos os carros da Nenê tiveram problema de direção e ficavam derrapando e encostando ora em uma grade, ora em outra. Uma repórter da Globo perguntou ao presidente qual era o motivo desse problema técnico. Betinho respondeu dizendo que o samba e a bateria da Nenê eram tão bons que até as alegorias quiseram acompanhar a coreografia, indo de um lado pro outro.

Dia de apuração também é dia de folclore. Impossível imaginar uma apuração sem ver a emblemática figura de Solange Cruz, a Leoa do Samba, sem seus terços – para quem não sabe, a presidente da Mocidade Alegre é católica fervorosa e anda com os terços na bolsa todo dia. Mas nem tudo é reza e emoção na apuração. Na fatídica apuração de 2012, o então presidente Neguitão, da Vai-Vai, pouco antes da confusão de invasão da mesa apuradora, soltou sua mais famosa frase, ainda hoje usada: “estou sentindo o cheiro da “crorofila”!

Bem, a Vai-Vai é a mais tradicional das grandes escolas de São Paulo e, de longe, a mais carregada de folclore. Não só de dirigentes, mas também de componentes apaixonados, engraçados e cativantes. Isso merece um livro, mas como o assunto de hoje são os dirigentes, não poderia escrever essa crônica sem falar de Sólon Tadeu Pereira e sua coleção única de frases: “Com as Benxãos de Noxa Xinhora Aparexida, Noxa Xinhora Achiropita, eu tenho que lembrar que amigo é amigo e punhol é punhol! Aqui é Vai-Vai, não é comédia”. Inesquecíveis também são suas palavras à imprensa após o resultado do Carnaval 1997, quando perguntado sobre quais seriam suas providências. Ele disse que ia procurar o Lauro (então presidente da campeã X-9 Paulistana e da Liga-SP), primeiro dar “uns tapa” na cara dele e depois ver as “providência” a ser tomadas…

Nem o prefeito e o governador do Rio foram poupados da sinceridade do saudoso Solon Tadeu: Em 2001 ele respondeu de bate-pronto às ofensas gratuitas dos políticos fluminenses (veja imagem com recorte de jornal da época).

Em 2005, Solon Tadeu, inconformado com o 5° lugar de sua escola, simplesmente ordenou que ela não participasse do Desfile das Campeãs. E foi obedecido.

E que ninguém tire sarro desse jeito macarrônico com que Sólon falava e resolvia os problemas: em seus 12 anos à frente da alvinegra do Bixiga, a escola foi campeã 5 vezes, ostentando inclusive um tetrampeonato!

Qual é, comédia… Vai encarar?

Botequim da SASP