Home > Carnavais > Carnaval 2017 > Por trás da caneta – Gui Cruz conta as particularidades do samba da Mocidade Alegre.

Por trás da caneta – Gui Cruz conta as particularidades do samba da Mocidade Alegre.

Hoje no quadro Por trás da caneta, conheceremos a obra da Mocidade Alegre para o carnaval 2017. A escola trará para a avenida o enredo A vitória vem da luta, a luta vem da força e a força da união , e quem nos conta os segredos da obra, é Gui Cruz, um dos autores da obra ao lado de Imperial, Luciano Rosa, Portuga, Rafael Falanga, Reinaldo Marques, Rodrigo Minuetto e Vitor Gabriel.

Vamos conhecer mais da obra que cantará o jubileu de ouro da Morada do Samba!

SASP: De que modo foi feita a confecção da obra e montagem da parceria? Realizam quantos encontros? Como eram os encontros?

Gui Cruz:  Eu primeiramente fui convidado pelo Vitor Gabriel e pelos gêmeos em 2013 para ajudá-los a compor, fiquei muito feliz pois sempre fui fã dos sambas deles… A nossa fiel parceria, teve a grande felicidade de se unir ao restante dos amigos através do meu pai (Bernardo Cruz) , que é amigo de muitos anos do Portuga e idealizou a parceria para a disputa das eliminatórias da Nenê de 2015, onde perdemos. Porém, há males que vem para o bem, pois além de criarmos uma grande amizade, no dia posterior a derrota já mudamos o nome do nosso grupo do Whats, o foco eram as eliminatórias da Mocidade Alegre para o carnaval de 2016, queríamos concorrer na eliminatória mais disputada do carnaval de SP, convidamos nosso amigos Rafael Falanga e depois de 1 ano de expectativa nós fomos, tivemos a felicidade, de nos braços da comunidade, ganhar! E para 2017 fomos em busca do BI Campeonato para a parceria. Nesse ano fizemos o convite ao Imperial, um grande compositor e apaixonado pela Morada do Samba para que completasse a nossa família.

As nossas reuniões começaram no mesmo dia em que a sinopse foi entregue, ali na padaria ao lado do estádio do Canindé surgiram as primeiras ideias já. Primeiro montamos as ideias de letra para depois encaixarmos a melodia, mas às vezes a gente fica cantarolando tanto uma coisa, que a melodia acaba ficando mesmo sem letra, depois a gente tem que complementar… Nos reunimos muitas e muitas vezes, nossas reuniões ou eram na Moóca ou na casa do Vitor Gabriel, de segunda a quinta feira, comíamos aquela maravilhosa pizza de 10$ com borda de catupiry ou cheddar. A gente tentava se reunir mais cedo para a reunião não acabar muito tarde, mas não tinha jeito, na maioria das vezes ficávamos até o sol amanhecer. Como hoje nós já somos uma família, criamos uma certa intimidade que faz com que tudo aconteça naturalmente, em um ambiente com bastante brincadeiras, pois quem nos conhece sabe que somos a alegria em pessoa, quando estamos juntos a zoeira é sem limites. Na hora de ficar sério(muito raras kkkk), o Vitor( nosso presidente), dava aquela chamada pra gente pensar um pouquinho, sempre compondo com muita alegria, além de criar um monte de coisa bacana, a gente tira a maior onda…

SASP : Conte alguma particularidade da obra para os leitores da SASP, alguma situação engraçada ou até mesmo, cite algum  trecho do samba que acabou não indo para a letra final apresentada. 

Gui Cruz: Fizemos o samba e a eliminatória toda, com a intenção de tocar o coração de quem é Mocidade Alegre. Optamos por fazer o samba em primeira pessoa, é a história e o enredo da Mocidade Alegre sob o olhar do seu fundador, senhor Juarez da Cruz.

Nas nossas reuniões, o que mais tem são situações engraçadas, quem conhece sabe que os gêmeos entendem dessa arte, tem varias historias, desde colocar vídeo de Exumação dos mortos pra gente assistir( depois do vídeo o samba deslanchou kkkkkk) até ficar brincando com uma bendita raquete de matar mosquito, essas brincadeiras nunca dão certo, aí acertaram logo quem? Eu! Todo mundo rachando o bico e eu bravo à noite inteira, tipo criança, meti um drama e aproveitei pra fazer um conchavo pra conseguir colocar uma melodia de pergunta e resposta no refrão de cabeça, a gente tinha feito e um parceiro já tinha deixado claro que não achava legal, mas depois do meu drama fiquei cantando a noite inteira, imitando o povo na avenida já kkkk, até que a maioria veio comigo, pensei que a dúvida desse parceiro quanto ao refrão tinha acabado quando cantamos o samba a primeira vez na disputa, e o povo veio com a gente, que nada! Tive a certeza que ela só acabou no primeiro ensaio técnico da Morada, quando a comunidade cantou forte demais na avenida! Ainda bem que fiz aquele drama!

SASP: Conte aos leitores da SASP, de forma detalhada, como se deu o processo de escolha do samba, passando pelas dificuldades do trabalho de quadra e escolha dos cantores (caso tenha sido eliminatória na quadra) ou como lidavam com a expectativa da escolha (caso tenha sido uma disputa fechada)

Gui Cruz: O fato da parceria ser muito organizada, acaba deixando o trabalho menos difícil, cada um sabe o que tem que fazer e produzir para o sucesso do trabalho. As eliminatórias da Mocidade Alegre sempre foram umas das mais disputadas do carnaval de São Paulo, e essa não foi diferente. Como na nossa parceria só tem gente maluca, a gente idealiza algumas coisas brincando (como o caso do bandeirão que emocionou a todos na final) que a parceria acaba levando a sério. A vontade de inovar nas disputas, mesmo com todas as dificuldades, acaba fazendo com que trabalhemos mais e com uma certa pulga atrás da orelha, “será que vai rolar?” Mas graças a Deus todas as nossas loucuras com muito trabalho deram certo, graças também a comunidade, pois não existe nada mais gostoso do que ela abraçar o samba, quando isso se alia a força e a amizade de quem nos ama e ajuda tanto, o sucesso é certo. Trabalhamos muito!

Quanto a escolha dos cantores, conseguimos unir duas grandes vozes na defesa da nossa obra, o Emerson Dias veio através do encanto que temos com a energia que ele passa no comando da Grande Rio, hoje nos tornamos grandes amigos.  Já o Carlos Júnior a parada é meio de fã para ídolo ,pois todos nós crescemos no mundo do samba ouvindo sua voz, uma das melhores do carnaval de São Paulo. Conseguimos ganhar com eles em 2016 e mantê-los para a disputar do Bi campeonato!

SASP: De que modo avalia a importância da gravação? Que cuidados devem ser tomados a fim de entregar o samba da melhor maneira para a escola?

 Gui Cruz: A primeira impressão é a que fica. A qualidade da gravação é tudo, pois nela estamos começando a “vender o produto ” e a partir  dela as pessoas podem comprar ou não a ideia, é claro que não adianta nada o samba ser ruim e a gravação ser fantástica, mas uma boa gravação tem o poder de levantar um Samba Enredo. Ela é tão importante para o trabalho que nós não medimos esforços para que fique com qualidade. Isso já começa na escolha de um bom estúdio, e de bons músicos, pois “a mão” de quem vai fazer todo processo  é extremamente importante, desde quem gravará as cordas, até os batuqueiros, que nós optamos por levar o da própria escola, é muito importante deixar a gravação com a cara da escola, com a essência da comunidade. E no processo final  tomar muito cuidado com a mixagem e a masterização, no nosso caso deixamos na mão de quem realmente entende, claro que dando a nossa opinião também! A melhor parte sempre é o lanche do estúdio, não deixamos por menos, tomamos o mesmo cuidado kkkkk

Antes do samba ir para a quadra tem seleção interna feita pela diretoria da escola, por meio da gravação, por isso nos damos a maior atenção a ela!

 SASP: Após a vitória, ajustes costumam ser feitos na obra, houve algum ajuste em sua obra? De que modo o compositor participa desse importante momento?

Gui Cruz: Os ajustes variam muito de escola para escola, algumas deixam o compositor participar desse momento outras já idealizam alterações nos sambas ainda nas eliminatórias, aí o compositor acaba não participando. Esse ano não houve nenhuma grande mudança em nosso samba, apenas uma palavra foi alterada.

SASP:  Muito se questiona a funcionalidade de sambas na avenida. Em alguns casos, sambas com qualidade reconhecida, não tem o mesmo desempenho no desfile que sambas menos comentados no período anterior ao carnaval, como você entende essa questão?

Gui Cruz: É uma questão muito complexa! 

E também é o que deixa uma interrogação na cabeça de nós compositores, o que realmente vale seguir? Totalmente o lado da técnica, daquilo que talvez não toque o coração do componente , mas traga a garantia de nota para o quesito ou seguir o lado da emoção? Não ficando tão preso às chatices que muitas vezes o regulamento impõe, agregando as coisas boas e ajudando a escola num todo…

Nos tempos de carnaval muito técnico, a emoção muitas vezes é deixada de lado, mas samba é emoção, tem que ser sentido e quando a comunidade sente, abraça o samba e se dispõe a defendê-lo cantando muito, ele tende a ter essa boa funcionalidade na avenida, seja o samba comentado ou o não tão comentado assim. Pra mim o samba bom, é bom em qualquer lugar, desde uma simples festa na quadra, até o dia mais importante na avenida, mas a funcionalidade na avenida se deriva da peça mais importante que uma escola pode ter, a comunidade!

SASP: Conte ao leitor da SASP, um pouco da sua trajetória como compositor, passando pelo início da sua carreira e lembrando as obras que já foi autor. Dentre as suas obras, você tem algum samba preferido?

Gui Cruz: Sou nascido e criado dentro da Escola de Samba Nenê de Vl. Matilde e desde que me entendo por gente tenho uma paixão por escrever, no colégio já fazia minhas poesias primatas kkkk. Essa paixão por escrever se aliou ao carnaval através do Carnaval Virtual,  brincando, dava os meus primeiros passos como compositor. No ano de 2011 escrevi meu primeiro samba para o carnaval de verdade, o carnaval real e em uma eliminatória disputadíssima na Nenê de Vila Matilde consegui chegar na final, para mim um grande feito pois era a minha primeira vez concorrendo. Depois disso ganhei na Mocidade Unida da Moóca e na Torcida Jovem, nesses 2 anos consecutivos sempre chegando as finais na minha escola. No ano de 2013 tive a felicidade de ser convidado para formar parceria com os caras que eu sempre fui fã dos sambas, os Gêmeos e o Vitor Gabriel. Com essa nova parceira, pro Carnaval de 2014 ganhamos Colorado do Brás, Águia de Ouro e juntamente com nosso padrinho André Ricardo, Leandro de Itaquera e Pérola Negra. No meu primeiro ano com eles ganhamos 4 sambas, para mim que só tô começando nesse meio, foi a maior emoção, pois além de ganhar e aprender com os caras que eu sou fã, vê-los aceitando as minhas ideias, dava a maior alegria. Em 2015 ganhamos Tatuapé, Colorado do Brás(já com a mesma parceria da Mocidade Alegre) e Paraíso do Tuiuti, o primeiro samba no Rio de Janeiro. Em 2016 ganhamos Mocidade Alegre e Unidos do Porto da Pedra-RJ. Para o Carnaval de 2017 ganhamos Mocidade Alegre, Vai-Vai e Acadêmicos da Rocinha.

Dentre as nossas obras tenho um carinho especial por todas kkkk Cada uma com sua história, é incrível ver o povo cantando uma coisa que você escreveu… Mas vou destacar  aqui 4.

O primeiro samba que ganhamos no Rio de Janeiro, Tuiuti 2015, é mais do que especial ter um samba na Sapucaí. O samba da Mocidade Alegre de 2016, que é o meu xodózinho por tudo que aconteceu durante as eliminatórias, mas principalmente pelo presente que nós recebemos, nossa família inteira desfilando com a gente. Outro xodó gigantesco que eu tenho é o samba do Vai- Vai de 2017, por todas as histórias e magias que envolveram esse samba, desde quando fizemos o refrão indo para o RJ, até a última linha que escrevemos, é um dos mais fantásticos que já tive a felicidade de escrever! Por último, o samba da Mocidade Alegre 2017, dar voz aos 50 anos de uma escola de samba, uma data tão importante, é inexplicável!  No mesmo ano, conseguir ganhar nessas 2 gigantescas escolas, é motivo de felicidade pro resto da vida! Ficará marcado em minha memória e na História!

 

SASP: A SASP deixa aberto o espaço para agradecimento a todos os parceiros e qualquer pessoa tenha feito parte dessa vitória, parabéns!

Gui Cruz: Quero falar primeiramente aos meus parceiros, agradeço a Deus por ter colocado vocês no meu caminho, hoje sem duvidas nós somos muito mais do que uma parceria, nos tornamos uma família que tem a alegria de compor o samba do cinquentenário da Mocidade Alegre, um momento muito importante e especial que nós fazemos parte! Amo vocês, obrigado Vitor Gabriel, Portuga, irmãos Minuetto, Rafael Falanga, Marçal, Reinaldo, Luciano Rosa, Imperial e Daniel Katar. Em nome da parceria, agradeço de coração a toda a comunidade da Morada do Samba, por terem abraçado nosso samba desde o começo. À nossa família e os amigos, muito obrigado por estarem com a gente sempre, torcendo, vibrando, cantando, chorando, amo vocês, muito obrigado por tudo!

A SASP, eu gostaria de agradecer pela moral que estão dando a nossa classe, muito obrigado de coração, parabéns pelo excelente trabalho! É noizzzzzzz! E vambora para o carnaval de nossas vidas!!!

Obrigado!

 

Botequim da SASP