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Saracura, presente! Vai-Vai canta história do povo preto e mostra credenciais para o título

Pouquíssimas escolas entre todos os carnavais espalhados pelo mundo possuem propriedade para resgatar a história do povo africano. Menos agremiações ainda conseguem captar a negritude proveniente desde a data de sua fundação e estruturar para mostrar num enredo. O Vai-Vai é uma dessas escolas que tem fundamento total e absoluto para tocar no assunto e transformá-lo em seu tema. Fundada por pretos, construídas por pretos e administrada atualmente por um preto, a escola do Bixiga deixou o saudosismo de lado e cantou a história do povo negro com muita categoria.

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Ciente de sua responsabilidade ao tocar no assunto e tomando para si o lugar de fala, o enredo foi construído com pilares que exaltam a cada setor negritude não só do componente e torcedor mas também do amante de carnaval. A abordagem foi leve mesmo com momentos que necessitam “tocar na ferida” como foi na ala representando a escravidão. A fantasia da ala era similar aos farrapos utilizados pelos negros quando eram escravos e as chagas nas costas relembravam o momento de sofrimento no açoite.

Já é tradicional da escola do povo gritar aos quatro cantos seu samba-enredo e nessa madrugada não foi diferente. Apesar de algumas palavras em iorubá o canto não foi prejudicado e o samba ecoou desde a arrancada da escola até quando a última ala cruzou a dispersão. Em seu primeiro ano como primeira e única intérprete oficial, Grazzi Brasil deu seu nome e sobrenome. A cantora e torcedora do Vai-Vai espantou as más línguas que afirmavam que o microfone oficial de uma escola de samba não poderia ser comandado por uma pessoa do sexo feminino e brilhou do início ao fim, acompanhada de seu carro de som.

Trajados de uma indumentária belíssima, Pingo e Paulinha Penteado empunharam o pavilhão alvinegro com a tradicional categoria que lhes é esperada. Com faisões negros espalhados na saia dela e no costeiro dele, o casal executou a dança com maestria e arrancou aplausos dos presentes e dos jurados dentro das cabines.

A dupla estreante responsável por construir o carnaval da escola merece menção. Roberto Monteiro e Hernani Siqueira assinam pela primeira vez e já mostraram que conseguiram entender o que é elaborar desfile para uma comunidade tão aguerrida. As fantasias eram de fácil leitura e proporcionavam ao componente mais liberdade na hora de cantar e evoluir. Há alguns anos não se via um abre-alas tão imponente quanto o que foi visto nesse desfile. As cores douradas simulavam ouro com muito luxo e requinte.

A comissão de frente do Vai-Vai veio com um elemento alegórico pedindo passagem. Vestidos como o “Sol da religiosidade” os 16 bailarinos baseavam-se em fatos bíblicos representados pelo povo hebreu. Segundo as escrituras sagradas eles marchavam no deserto rumo a terra prometida. O primeiro setor trouxe a África, origem das civilizações. Ostentando o pavilhão da escola o mestre-sala vestia uma indumentária de Piye: O campeão de Amon e a pota-bandeira Amenirdes: A divina e adorada de Amon. Ele era o primeiro faraó negro da XXV dinastía egípcia e ela era sua irmã, divina e adorada. A fantasia fazia total aluzão as vestimentas utilizadas no Egito antigo. Dando continuidade ao desfile estava a ala de baianas, vestida de Candaces, as rainhas negras africanas. Reafirmando a ancestralidade da própria escola. O abre-alas acoplado era o “Legado civilizatório da África”. Dividido em três bases a primeira era o sopro da vida, com menção aos Deuses egípcios. A segunda possuía a cristalização do Império Negro no glorioso Egito. Fechando o primeiro carro a mensagem passada foi do legado de grandeza espalhado pelo continente africano. Fazendo referências aos povos africanos, e os legados deixados neste caso na metalurgia e escrita. A figura central era Ogum, Deus da metalurgia e Orixá protetor da Escola.

O segundo setor era “Maáfa”, fazendo referência à escravidão dos povos africanos e à diáspora africana, causada pela escravidão e imperialismo. As alas traziam a brava resistência do povo africano mediante as adversidades impostas. Neste setor estava bateria, vestida de Pantera Negra e sua Rainha Camila Silva representou o “Poderio Tecnológico”. A rainha de bateria mirim vestia o “Florescer do poder feminino em Wakanda”, local onde se passou o filme Pantera Negra. A segunda alegoria da escola representava os tumbeiros, com as lágrimas e sangue no Oceano Atlântico. Ilustrava de forma subjetiva a participação da igreja e da realeza na escravidão. Mostrando os aspectos do sofrimento e da resistência do povo africano. Por fim, Iemanjá, dona do mar, resgatava as almas perdidas nas águas do oceano.

As lutas em diáspora se tornaram visíveis no terceiro setor da agremiação. A primeira ala do setor era inspirada nas cores da bandeira haitiana e na indumentária utilizada pelos revolucionários pretos após a conquista do país. Seguindo veio a ala coreografada composta por três roupas diferentes: Zumbi, inspirada no rei africano. Lanceiros de Zumbi, representada livremente nas vestimentas da guarda de lanceiros do Quilombo dos Palmares e os Sacerdotes, de forma lúdica, do templo de Palmares. Neste setor também estava o terceiro casal da escola que representavam o negro Gangazumba e Dandara, a força da mulher quilombola. As guerras também estiveram presentes como “Revolta dos Malês” e o regime de segregação da África do Sul, Apartheid, também em forma de ala coreografada. Finalizando o setor veio a terceira alegoria com Poder Para o Povo Preto (4P), fazendo alusão ao movimento negro americano reconhecido internacionalmente como Black Panther, o empoderamento feminino com as Rosas Negras e a estética Blacksploitation, movimento cinematográfico comandado pela comunidade negra no fim dos anos 60. As referências à luta do negro na América estavam presentes nos punhos serrados e diamantes negros.

A quarta etapa do desfile trazia o “Protagonismo Negro”. Iniciado pela Geledés e o poder a militância feminina na décima sexta ala da escola. A instigante cadência do corpo negro e a liberdade religiosa também estiveram presentes. De forma lúdica, o black money foi mostrado. O carro quatro era intitulado de “Sim, nós podemos!”. Demonstrando que é possível romper barreiras que mantém a estrutura do racismo.

Concluindo o desfile, o último setor trouxe o “Afroturismo, o quilombo do futuro”. O quinto carro possuía forma estilizada num futuro utópico onde o povo da pele preta reconquista eu domínio tecnológico que fora apagado de sua história.

 

Botequim da SASP