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30 anos do Anhembi: Como foi a primeira vez que você esteve lá?

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 Por Fábio Parra

Confesso que não imaginava que 1990 teria sido o último carnaval da Av. Tiradentes. Eu me orgulhava de a cidade ter um carnaval de asfalto, achava um esplendor incomparável chegar na dispersão vendo a Estação da Luz e o prédio do Banespão ao fundo…

Eu era office-boy, tinha 19 anos e recebi com certo descrédito a notícia de que a prefeita Erundina ia fazer um sambódromo no Parque Anhembi. Aquilo era um fim de mundo ruim de se chegar a pé (eu detesto dirigir e já sabia disso na época). Eu já tinha ido lá algumas vezes, no Salão do Automóvel, em formaturas, para comprar ingressos e no velório do Raul Seixas. Mas achava improvável e antipopular pôr as escolas pra desfilar naquele brejo sem estação de metrô e sem linhas de ônibus.

A curiosidade e o tesão pré-carnaval me fizeram ir sozinho para a estação Tietê e andar a pé prá saber como seria esse sambódromo. Faltavam uns 20 dias pro carnaval e a Dona Cida (Maria Apparecida Urbano), então carnavalesca da Barroca, me encontrou na rua e disse que o barracão estava lindo e que eu devia visitar. Era no circo que ficava no terreno, no final da Olavo Fontoura (onde será a nova quadra do Império de Casa Verde).

Caminhei desde o Tietê, atravessei a passarela da praça Campo de Bagatelle, segui pela Olavo (era menos sinistro, há 30 anos, andar sozinho a pé por aquelas quebradas à noite…). Depois do “pudim” do Palácio das Convenções, já se avistava o canteiro de obras. Um breu, escuridão total. Eu sou o Parra… pensei: “prá que vou andar a pé pela Olavo se posso ir desfilando no escuro pela pista que vai ser a minha casa…” Me meti entre montes de pedras, areia, nacos de terra vermelha, vergalhões, caçambas, quase tudo sentido pelo tato e pela pisada. Só as luzes da marginal, bem mais fracas que hoje, chegavam. Cadê a pista? Me perdi e não achava, entrei naquele trecho que chamam de “Engenharia”, e num galpão onde parecia um grêmio, funcionários lanchavam e me informaram como achar a pista, mas era melhor ir de manhã porque eu podia me acidentar.

Agradeci, mas tinha que ser naquele momento. Achei a pista. Queria pisar nela. A pisada era fofa, eu sabia que eram terra. Não dava para chegar nas arquibancadas tubulares, algumas ainda sem madeira e sem cobertura. Eu tentei pular pelo fosso, mas ele estava alagado e a lama foi pra cima dos meus joelhos, empastelando a minha calça bag Jeaneration, comprada a prestação na Mesbla, com cintura alta e o cós enterrado na dobra direita da virilha, exilando todo o resto para a esquerda, como se fosse um toureiro (era a moda da época). Também seria inutilizado o par de tênis Le Cheval branco de cano alto. Mas dane-se… é a oferenda… maluco do céu, essa merda não vai ficar pronta até o desfile… Acho que teremos que desfilar na Olavo… a lama da calça começa a secar e depilar a perna por dentro da calça, o pé gelado dentro do Le Cheval alagado…

Pelo coxo da Bateria (hoje se fala “recuo”) subi na cabine da imprensa, já construída, e fiquei debruçado não sei por quanto tempo olhando a penumbra da pista, pilhas de madeirite, refletores apagados no alto dos camarotes e pensei, pensei, divaguei… Não sei quanto tempo, mas lembrei o que divaguei: daqui umas décadas, eu serei só um espírito e ficarei aqui, olhando a pista apagada e esperando chegar o carnaval pra ela acender. E vai estar o fulano, o sicrano (fui pronunciando nomes de sambistas mortos e vivos que seremos assombrações um dia naquela pista que um dia foi brejo de lama vermelha. Eu sempre acho que os sambistas que morreram acordam no carnaval e ficam encostados lá. Uns assistindo, outros desfilando, uns ajudando, outros atrapalhando… Eu já vi muitos deles. Sabem como é o Parra…

Tinha chovido. O córrego que corta o sambódromo (onde hoje ficam as torres 8 e 9) estava exposto, alto, pulando e alimentando o lamaçal. Avistei o circo, que tinha um caminho de pedrinhas para caminhar até ele sem afundar na lama. A barroca estava linda, estupenda, sofisticada, os carros gigantes e altos dentro do circo. Somente o Vai-Vai teve magnitude comparável, de escala, acabamento e expressividade naquele carnaval. Como aquelas jóias de alegorias lindas iam passar naquela pista enlameada daqui três semanas? Eu não sabia. A lama da minha calça secou, começou a craquelar. Bem-Bem, irmão do mestre Bolão, arrumou um short desses de futebol e uma sandália havaiana pra eu voltar pra casa, depois de tomar banho lá dentro do circo. Eu varei a noite namorando aquelas alegorias prontas e só fui embora com o sol, voltei a pé, dessa vez com as havaianas se sujando naqueles montes de barro desenhados por freadas de tratores, com aquelas pilhas de madeirite vermelho, e sonhando como seria desfilar naquele Anhembi depois de pronto.

Bem, pronto ele nunca ficou: o que se tem hoje não é nem um quarto do projeto proposto por Niemeyer. Nem o sentido do desfile é o mesmo. Nem a parte coberta, em arco, que equalizaria o som, nem as arquibancadas (que seriam quatro lances monumentais e um baixo, ao rés do chão, para democratizar o acesso dos menos favorecidos e respeitar a Lei de Zoneamento para a região, vizinha a um aeroporto. E nem as sinistras torres de jurados, que impedem que a maioria do público tenha visão ampla, geral e irrestrita da pista. Niemeyer jamais projetaria essas torres que privilegiam a visão de 27 ou 36 jurados que estão ali por contrato, em detrimento da visão de qualquer cidadão pagante para ver sua escola desfilar. Muito menos a querida e corajosa prefeita que apoiou a obra. Aliás eu considero muito tímidas as manifestações dos sambistas em gratidão à primeira mulher a prefeitar nossa cidade. Não só pelo sambódromo, mas também pela excelente rede municipal de ensino, pela volta da Fórmula 1 a Interlagos, pelo agito cultural daqueles shows gratuitos no Anhangabaú… Mas isso é outra história. Fiquemos agora para falar do aniversariante Pólo Cultural e Esportivo Grande Otelo, que abriga a passarela Adoniran Barbosa…

E o primeiro carnaval ali foi assistindo no setor mais barato, com arquibancada descoberta e iluminação precária. Desfilei na última escola, o Camisa. E no dia seguinte na Imperador, que tinha três alas confeccionadas na minha casa, pela minha mãe e minha avó. Não, não era encomenda profissional. Era voluntário e se a cola de sapateiro acabava (não tinha cola quente) minha mãe comprava outra lata e não me deixava cobrar do presidente Rubão. Nossa, era essa a pergunta do título dessa resenha… Bem, é o Parra…

E você? Como foi o seu primeiro contato com o trintão Anhembi? Compartilhe sua emoção. Escreve aqui… Abra o baú e publique suas fotos nessa passarela, os links de seus carnavais inesquecíveis…

Não haverá o feriado, mas a data do carnaval não se antecipa nem se posterga… É uma festa ancestral, de mais de 7 mil anos, que antecede os festejos da Páscoa. Nossa oferenda de alegria vai continuar! A folia poderá ser virtual, mas a emoção nos nossos corações e o brilho nos nossos olhos será real! Fique online, chame os amigos para celebrar a memória e o orgulho de sermos sambistas e foliões! Que o Altíssimo e Sagrado de cada um nos proteja. Que a doença vá embora, que a gente volte a viver o carnaval como pedia o saudoso locutor Fernando Vanucci: “Sem medo de ser feliz!”

Amém, Aleluia, Shalom, Salamaleikun, Namastê, Ariê, Axé, Motumbá, Kolofé, Adupé, Saravá, Mukuiú!

Evoé!

 

Botequim da SASP