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‘Por dentro dos enredos’: Colorado ressignifica a história das bruxas sonhando com o título inédito

Por Lucas Malagone
Imagens: Dan Santana e Diego Florêncio/SASP Carnaval

Dando sequência à série ‘Por dentro dos enredos’, que apresenta as propostas das escolas do Grupo Especial, a SASP destaca hoje o tema da Colorado do Brás. Após conquistar o 10º lugar no último desfile, a agremiação apresenta o enredo “A Bruxa Está Solta! Senhoras do Saber Renascem na Colorado”, uma proposta que mergulha na história, no simbolismo e na ressignificação das bruxas ao longo dos séculos.

O enredo é desenvolvido pelo carnavalesco David Eslavick e pelo enredista Thiago Morganti, que assinam o segundo carnaval consecutivo pela escola. A narrativa tem como eixo central a valorização do feminino ancestral, da sabedoria das mulheres historicamente marginalizadas e da liberdade de existir sem medo, tendo como fio condutor a construção histórica e cultural da figura da bruxa.

A proposta percorre desde a perseguição durante a Inquisição Católica, entre os séculos XII e XIX, até a transformação da bruxaria em personagem fictícia na literatura e no imaginário popular. O carnavalesco também imprime ao desfile referências de sua trajetória profissional, marcada pela atuação em produções de terror nos parques Hopi Hari e Playcenter, o que contribui para a ambientação estética do enredo.

Para compreender a narrativa, é fundamental o resgate histórico do período inquisitorial, quando mulheres que fugiam dos padrões impostos pela Igreja — como curandeiras, parteiras, estudiosas da natureza ou simplesmente independentes — passaram a ser rotuladas como bruxas. A partir dessa perseguição, consolidou-se uma imagem estigmatizada: mulheres vistas como maléficas, associadas ao demônio, à feiura e à escuridão. Na prática, tratava-se de uma repressão violenta a comportamentos considerados desviantes, cujos reflexos ainda ecoam na sociedade contemporânea.

O desfile se inicia com o Grande Sabbah, a celebração simbólica dos rituais, da comunhão com a natureza e das fases da lua, anunciando que o saber dessas mulheres jamais foi silenciado. Em seguida, a escola aborda o auge das perseguições inquisitoriais, estabelecendo conexões entre os tribunais da fé e os relatos fantasiosos criados para justificar a intolerância, como acusações de rituais de sangue, canibalismo e profanações.

O enredo faz referência às primeiras caçadas às bruxas documentadas, como as ocorridas no cantão de Valais, entre as décadas de 1420 e 1430, e destaca que a perseguição variou conforme o contexto religioso, alcançando tanto regiões católicas quanto protestantes. Nesse percurso histórico, surge o Malleus Maleficarum, conhecido como ‘O Martelo das Bruxas’, tratado escrito pelo inquisidor Heinrich Kramer (Institoris), que consolidou a ideia da bruxaria como uma prática essencialmente feminina. Embora oficialmente rejeitado pela Igreja, historiadores apontam que o livro foi amplamente utilizado como instrumento de repressão, tortura e controle social.

Na sequência do desfile, a Colorado evidencia como a figura da bruxa foi caricaturada pela arte e pela literatura, passando por contos clássicos como ‘João e Maria’ e ‘Branca de Neve’, e ganhando força no cinema, em obras como ‘O Mágico de Oz’. O enredo então avança para releituras contemporâneas dessas personagens, que passam a ser retratadas sob uma ótica de força, identidade e autonomia.

No setor final, a escola promove uma inversão simbólica: exalta as bruxas como precursoras da ciência, da farmacologia, da astronomia e de diversos campos do saber. Mulheres que detinham conhecimentos fundamentais e que, ao longo da história, foram apagadas ou tiveram suas descobertas apropriadas. Com isso, a Colorado do Brás encerra o desfile celebrando a libertação, o protagonismo feminino e a coragem daquelas que ousaram ser diferentes. A Vermelho e Branco será a segunda escola de samba a desfilar na sexta-feira de carnaval, no Sambódromo do Anhembi.

Confira abaixo o samba-enredo da Colorado do Brás no Botequim da SASP:

Botequim da SASP