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‘Por dentro dos enredos’: Na busca pelo penta, Gaviões da Fiel prepara manifesto em favor dos povos originários

Por Lucas Malagone e Dan Santana
Imagens: Dan Santana e Diego Florênio/SASP e Reprodução Internet

Dando sequência à série ‘Por Dentro dos Enredos’, vamos conhecer um pouco mais sobre o que os Gaviões da Fiel apresentam para o carnaval deste ano. Com o enredo “Vozes ancestrais para um novo amanhã”, assinado pelos carnavalescos Julio Poloni e Rayner Pereira, a agremiação propõe um manifesto em defesa dos povos originários, ressaltando a preservação de suas culturas e saberes diante de um progresso imposto a qualquer custo e que, muitas vezes, resulta em apagamento, violência e destruição. Com forte teor político e reflexivo, os Gaviões partem em busca de seu quinto título, feito que não alcançam desde 2003.

O fio condutor da narrativa será a lenda da Yãkoana, o sopro sagrado utilizado pelos xamãs Yanomami para acessar dimensões espirituais. A partir dessa lente mística, os Gaviões pretendem apresentar a floresta como um organismo vivo e sagrado. Nos primeiros setores, o público será conduzido ao transe da Yãkoana, momento em que os espíritos Xapiri revelam o tempo do sonho. É nesse plano espiritual que Omama cria as florestas, os rios e toda a vida, dando origem aos povos que vivem em harmonia com a fauna, a flora e as forças da natureza.

Esse equilíbrio, no entanto, é rompido pela chegada do invasor, simbolizado por Xawara, entidade associada à devastação e às doenças trazidas pelo contato predatório. A Torcida Que Samba deve retratar o impacto da colonização e da exploração desenfreada, relembrando povos como Canindé, Caeté e Guarani, destacando culturas, costumes e modos de vida que foram silenciados ou dizimados pela ganância humana. A proposta dos Gaviões é transformar o desfile em um chamado à reflexão: ouvir as vozes ancestrais como caminho para a construção de um novo amanhã.

“No princípio, era o sonho…

A vida tocava o meu rosto com seu vento; banhava meu corpo com as águas límpidas dos rios que cortam a floresta. O solo germinava a beleza e fornecia o sabor da eternidade. O céu cristalino emoldurava a despretensiosa dança das plumagens. Assim vivíamos no tempo do sonho. Foi o que ouvi dos espíritos Xapiri, quando imergi no transe de Yakoana. Um caminho de luz resplandeceu por entre as matas e eles vieram até mim dançando com todo seu brilho e esplendor.

Em transcendência, ouço seu canto e suas histórias. Eles me contaram que quem criou a floresta e os rios foi Omama; quem formou as árvores e as plantas, as flores e as sementes; quem concedeu todo esse paraíso fazendo de nós seus descendentes. No seio da floresta construímos nossas malocas, cantamos e dançamos com nossos filhos e mulheres nas festas da aldeia. A terra, o céu, os rios, os animais, tudo em equilíbrio, tudo em seu lugar. Trama perfeita de Omama que chamamos de lar.

Mas um dia no horizonte surgiu Xawara. Era o final do tempo do sonho e o começo do tempo da estrada. Sobe a fumaça do metal, escorre a lama da ganância. O ouro canibal devora o sonho e patrocina a matança. A cruz que esteia o “progresso” desencarde a invasão. Em nome de um vulgo senhor, rouba minha terra e profana meu chão. E foi assim que a gente de Yoasi foi esvaziando a floresta de seus habitantes. Desfilando suas máquinas à diesel sobre o nosso sangue.

O orvalho sumiu do véu das cachoeiras, tantas histórias diluídas em meio às labaredas. Sou caeté, cariri, canindé, tapajó, guarani, potiguar… Meu corpo pereceu, mas minha memória ainda habita o maracá. Eu sou a voz que ecoa da floresta, sou a resistência dos povos originários. Sou a luz da esperança que ainda nos resta, sou o brado em defesa do nosso santuário. Eu sou o retumbar do canto dos meus ancestrais, sou a confluência de 305 povos que ainda hoje clamam por respeito. Sou o vestígio de centenas de nações que foram extintas e o vislumbre de um futuro que será refeito”

* trecho extraído da sinopse oficial da agremiação

Na sequência do desfile, as vozes ancestrais se erguem e rompem o silêncio imposto pela destruição. Entidades e forças da floresta ganham corpo e presença na avenida: surgem Aru, o mestre do remo; Tapyra’yawara; Pavú Maraúna; a Boiúna de Fogo e Anhagá. Guardiões da mata, dos rios e da vida, esses seres simbolizam resistência, proteção e a força que emana da ancestralidade. 

É nesse momento que a narrativa assume contornos de um embate simbólico entre preservação e devastação. Os espíritos da natureza conduzem uma reflexão direta ao público: qual é o custo do consumo desenfreado, do desmatamento e da poluição? Ao transformar a avenida em espaço de questionamento, os Gaviões reforçam a mensagem central do enredo, dependemos das florestas e dos ecossistemas para nossa sobrevivência. Respeitar a natureza e buscar uma convivência harmônica deixa de ser escolha e passa a ser necessidade.

“Eu transformo filosofia em lenda para que você entenda a minha história. Nossos mitos são sagrados porque a tradição é a nossa escola. Em cada conto, a nossa luta ganha imagem e poesia. Ressoamos nossa voz através da nossa mitologia. Se a terra aquece feito brasa, Aru balança o remo e traz brisa. Quando das águas fiz brotar Tapiraiauara, denunciei o descaso que a natureza vinga.

O brilho mortal da cobiça reluz nos olhos da fera que emerge da terra. Boiúna de fogo encandeia a noite para os filhos de anhangá vencerem a guerra. No transe de rapé, a magia do pajé paira na aldeia. Sua reza é forte e afugenta a morte cessando nossa dor. Mil cobras aladas no clarão da lua cheia devoram Xawara, o monstro devorador.

E assim, com mitos e lendas, vamos tecendo o nosso ideário. A nossa visão de mundo é real porque é mítica, mas nossa luta é tão poética quanto política. Ainda sonhamos com um brasil originário! Respeite as vozes ancestrais que repercutem no planalto reivindicando a maternidade da pátria-mãe hostil. Se há um marco temporal, este é 1500; quando pindorama não era brasil.

Que as palavras de Sônia, Joênia, Célia e Juruna demarquem seu pensamento devastado. E a luta de Tuire Kayapó, Raoni, Ailton Krenak, Davi Ko-Penawa e tantos mais reflorestem seu coração colonizado. Ouça a sabedoria que emana das matas, o canto dos beiradões e o som das cascatas. reconhece tua cara, brasil, e não se deixe mascarar. Teu sangue é caboclo e a tua vocação é ser Guajupiã!

Ouça a minha voz no canto dos gaviões! Ela é flecha que atravessa o tempo, luz que ilumina gerações. Se a floresta é a vida, a minha voz é guardiã.

Enquanto existir o povo indígena, ainda existirá o amanhã”

* trecho extraído da sinopse oficial da agremiação

Encerrando o enredo, os Gaviões voltam o olhar para o presente e presta homenagem a lideranças indígenas que seguem apontando caminhos e mantendo vivas as lutas ancestrais. Sônia Guajajara, Cacique Raoni, Tuíre Kayapó e Ailton Krenak surgem como vozes contemporâneas de resistência e consciência, símbolos de um futuro possível construído a partir do respeito à terra e aos povos que a habitam.

Em tom de manifesto, a Fiel Torcida reafirma a necessidade de preservar o legado daqueles que primeiro habitaram estas terras. Ao fincar a flecha e fazer tremer a terra na avenida, a agremiação transforma o desfile em um chamado coletivo por responsabilidade e reconexão. Em busca da quinta estrela, 23 anos após o último título, os Gaviões apostam na força da ancestralidade para ecoar sua mensagem e emocionar o Anhembi.

Confira abaixo o samba-enredo dos Gaviões da Fiel no Botequim da SASP:

 

Botequim da SASP