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Confira a sinopse do enredo da Acadêmicos do Tucuruvi

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A Acadêmicos do Tucuruvi realizou na noite da última quinta-feira, 17, a entrega da sinopse para os compositores interessados em participar do concurso que irá escolher o samba da entidade para 2025, quando levará para o Anhembi o enredo Assojaba – A Busca pelo Manto!

Os sambas deverão ser entregues na escola em 11 de julho e a grande final do concurso acontecerá em agosto. Confira abaixo a sinopse do enredo:

Assojaba – A Busca pelo Manto”

Apresentação

Em 2025 cantaremos Assojaba, o manto Tupinambá, no Anhembi. Usado por aqueles que detém a honra e o poder, o manto representa a força dos ancestrais indígenas que habitam cada brasileiro. Afinal, todos nós devemos conhecer a nossa história e reverenciar os verdadeiros donos dessa terra.

O manto é um dos principais símbolos de força e respeito dos mais velhos, dos pajés, majés, morobixabas, caciques e cunhãs nos momentos cerimoniais. Vestir o manto é a certeza de que a humanidade conecta-se com os encantados e, assim, a vida caminha para a comunhão com o sagrado natural. Sabedoria trançada pelas mãos de sábias mulheres, o manto é a feminina ancestralidade que vive em cada um de nós.

E foi exatamente por ser tão valioso que foi levado para a Europa na época da colonização. Utilizado como objeto exótico, serviu de fetiche e presente entre cortes europeias.

Tema de diversas obras de arte, exposições e debates sobre a questão indígena no Brasil o manto resistiu, pois nossa história não se apaga, assim, tão facilmente. Escutamos o chamado do manto e é ele quem decidiu voltar e contar a sua própria história sob um novo olhar. Nosso enredo irá, como um grande sonho, buscar o manto que está longe de nós e a memória Tupi que habita a Serra da Cantareira. Nossa escola ressoa a voz de Glicéria Tupinambá que, incansavelmente, luta pelo seu retorno e pela valorização dos povos indígenas do Brasil. Que a nossa voz ecoe aos quatro cantos.

Em busca do manto, em busca da vitória! Vamos, Tucuruvi!

Sinopse

“Sou eu, Tupinambá
Lá na mata eu jogo flecha na minha aldeia…”

Sou eu, Tucuruvi, e sou a continuidade de quem viveu em minha terra. Estou aqui para cantar Assojaba, o manto Tupinambá. Seremos, no Anhembi, a voz de quem sofreu pelas mãos do colonizador, mas que transformou a dor em um motivo para contar outra versão da história. O outro lado. O nosso lado. Nossa busca se dá pelo sonho. Para o manto existir, precisamos re-existir. Resistir.

O sonho da revelação
O olhar estremece, sono profundo. Adormeço. Uma música, ao longe, ressoa e toca a ancestralidade pois o lugar do sensível é o invisível que invade a alma. Caminho no chão do universo, trama cósmica infinda que cruza tempo e espaço. Lá, teias forjam rastros de passado. Vou além. Diante de um grande portal – o entrelugar do sonho que filtra a realidade – o canto de Yby anuncia que, enfim, um segredo será revelado. Danço como pássaro, brado como onça feroz. O chão estremece e o céu se tinge de magia. São os encantados me chamando… Quando, de repente, um grande vulto se aproxima. É o manto! Imponente e sábio. Escuto sua voz e, no sonho, me diz que era tempo de ser cantado. Contava histórias vivas de energia. Lembrava da sua conexão com os povos indígenas. Dizia que era hora de voltar. O sonho se avolumou e caí em outra dimensão. Foi o manto quem me guiou.

O sonho da feitura
Mulheres entoavam uma canção: Poesia, melodia, gesto, voz. Tato. Sentia o tucum costurar suas teias como a mesma linha que forja as tramas da vida. Num espelho d´água, vi o cosmos refletir o encanto e tecer afetos. Também vi surgir, no reflexo do espaço, o desenho de múltiplas constelações. E se, para pescar, é preciso lançar a rede ao infinito era preciso, também, desvendar o ponto jererê. Aquele que trança segredos e poderes nas águas doce do riacho. Águas que beijam pedras, guardando memórias da natureza. No pouso dos pássaros, que deixam suas penas nos descuidos de repouso, o sonho ia se materializando e adocicando a poeira das estrelas. Ouvia as mais velhas Majés contarem como o manto era tecido. Via, da tapiragem, nascerem novos tons. Era como se a Terra parasse e um grande pássaro me fizesse voar. Dei mais um mergulho mas, dessa vez, o sonho me deu arrepios.

O sonho que conta o outro lado da história
Sonhei que o manto já não sorria: era objeto de fetiche, viajando entre reis e rainhas europeus que presenteavam uns aos outros. Para eles, “objeto de curiosidade”. Para nós, a vida sagrada. Misto de raiva e saudade, o choro embargou a voz. A reparação seria feita e o manto precisava gritar a sua própria história. Eu vi ibirapema e o pajé começar o ritual de julgamento. Eu vi o devorador sendo devorado. Descoroado. Eu o vi aniquilado. O exotizador, agora, seria exotizado. E, nos 500 anos de um falso descobrimento, a trágica invasão, eu vi o manto visitar sua terra natal anunciando seu retorno definitivo. Páginas em branco de um tempo a ser reescrito. Era hora do manto voltar.

O sonho do retorno
Sonhei com o manto. Pleno, radiante, voltando ao seu povo. No sopro de Ibytu, um manto extenso surgia e, junto a ele, outras memórias roubadas de nossa gente. São cocares, armaduras de nosso viver, que emolduram o nosso pensamento ameríndio. São flautas, maracas e tantos outros itens que ressoam o orgulho de sermos indígenas e defender a terra que nos é de direito.O sangue vermelho, urucum que corre nas veias, é o passado que nos cerca e nos faz mais forte.
Hoje, somos Tupinambás, Tupiniquins, Guaranis, Krenaks, Guajajaras, Mundurukus, entre tantos outros que lutam por um Brasil que respeite nossa ancestralidade. Somos Glicérias, que sonham com um mundo mais justo e igualitário onde o direito de estar vivo seja o primeiro. Somos a retomada de nossos antepassados que habitam a serra da cantareira. Somos a luta Tupi e a sede de justiça que vive em cada pedaço desse chão. O manto é nossa bandeira tecida pelas vozes e sonhos de cada um.
Quase ao despertar, ouvi uma mensagem: Devolvam nosso manto! Deixem-nos contar a nossa própria história! E, então, eu, Tucuruvi, com lágrimas nos olhos, deposito minha história nas mãos do destino. É esta a voz ancestral que nos alumia e guia junto aos deuses.
A terra sonha, o mundo sonha.
A natureza se impõe.
Que seja feita a vontade do manto.
Que seja reescrita a nossa história.

Carnavalescos: Dione Leite e Nicolas Gonçalves

Enredo e Pesquisa: Dione Leite, Nicolas Gonçalves e Vinícius Natal

Texto: Vinícius Natal

Agradecimentos: Glicéria Tupinambá, Professor Ricardo Domingos, Rodrigo Pereira, Luiz Rufino.

Botequim da SASP