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Gente do Samba: Tiguês conta sua história, fala sobre resgate da Império e expectativa para 2021

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Por Flávio Ismerim

Rogério Figueira, conhecido como Tiguês, é uma das maiores lideranças da Império de Casa Verde e um dos principais responsáveis por um processo de resgate que recolocou o Tigre Guerreiro na disputa por títulos do Carnaval de São Paulo. Ele, que se define como apaixonado e estudioso da folia de momo, contou um pouco da sua história para a SASP e aproveitou para deixar um recado: “Se você não tiver alegria para desfilar, esquece”.

Tiguês, que é diretor de carnaval da Império desde 2013, conta que mesmo ainda pequeno, se apaixonou pelo samba por meio da batucada. “Meus tios tinham um time de futebol amador e eu ficava ali, de fralda, ouvindo aquela batucada. Samba-enredo pra caramba, batucada pra caramba na beira do campo”, relatou. Sua estreia em desfiles foi em 1979, abrindo um torneio de futebol antigo. Escola de samba mesmo só chegou em sua vida no ano de 1993, quando ele resolveu entrar para a bateria dos Gaviões da Fiel.

Começo como ritmista

Corintiano fanático, ele ficou na “Torcida Que Samba” até 2011, sempre como ritmista. Nesse meio tempo, mais precisamente em 2005, Tiguês passou a dividir suas atenções entre a Fiel e a então Caçula do Samba – apelido recebido pela escola da Casa Verde que, com apenas nove anos de fundação, havia chegado ao Grupo Especial. “A Império havia perdido o carnaval em 2004 no quesito bateria e o Gaviões havia sido rebaixado. Então o Zoinho, o Chulé e o Jagunço (que eram da bateria da Fiel Torcida) foram convidados para fazer um trabalho lá (na Império)”, contou.

Tiguês também chegou a desfilar pelo Pérola Negra e em algumas escolas do Rio de Janeiro, mas precisou largar seu ofício de ritmista por conta de duas fraturas seguidas no braço e acabou entrando pro mundo da Harmonia. Ele, que já havia fundado o Departamento Social da Império, recebeu o convite para ser chefe de ala, harmonia e foi escalando os cargos até virar um dos principais líderes da escola. “Como eu sempre gostei muito de carnaval, sempre fui muito estudioso. Metido a compositor, a enredista. Fui entrando, entrando, entrando até virar diretor de carnaval”, explicou.

Chegada ao cargo de Diretor de Carnaval

O carnaval de 2013 foi um verdadeiro ponto de virada na história da Império de Casa Verde. Após receber uma punição em decorrência do famoso incidente das notas rasgadas na apuração de 2012, a Império precisou fazer seu desfile sem receber verba e conseguiu voltar no Desfile das Campeãs, alcançando um quinto lugar com um enredo sobre a cura, desenvolvido pelo carnavalesco Alexandre Louzada (hoje na Beija-Flor, do Rio de Janeiro).

Para Tiguês, as coisas também mudaram neste ano. Depois de deixar o departamento de Harmonia após o desfile por um descontentamento interno, ele recebeu um convite de Alexandre Furtado para substituir Marcelo Casa Nossa como diretor de carnaval da Império de Casa Verde, em julho de 2013.

“Era uma coisa que eu almejava mesmo trabalhar como diretor de carnaval e até como carnavalesco, mas não naquela hora. Foi bem surpreendente. Foi um desafio muito maior do que é hoje”, afirmou. “Caí de paraquedas e eu não tinha ideia de como começar, então eu tive que colocar uma estratégia diferente do que era na escola antigamente para poder me adaptar melhor à função”, contou.

Resgate da escola

Indo para seu oitavo carnaval no cargo, Tiguês acredita que as principais mudanças que levaram a escola a retomar seus bons resultados foram a conscientização dos componentes e a melhoria no trabalho de fantasias.Com a chegada de Jorge Freitas em 2016 – que na época tinha dois títulos pelos Gaviões da Fiel (2002 e 2003) e um pela Rosas de Ouro (em 2010) – , o processo de fantasias mudou.

“A gente teve muito problema com o quesito fantasia. Mudava fornecedor, mudava mão-de-obra e nada resolvia”, relatou. Ele (Jorge) tinha uma estratégia diferente como carnavalesco. Então a gente acabou trocando e internalizando esse processo de concepção de fantasia”, explicou Tiguês.

Quis o destino que logo no primeiro ano de trabalho com o carnavalesco o Império não só gabaritasse o quesito fantasia, como também garantisse seu terceiro e até hoje último título do carnaval, em 2016 com o enredo “O Império dos Mistérios”. Por outro lado, Tiguês destaca que existem outras faces além do legado trazido por Jorge Freitas.

“O componente se conscientizou de que ninguém tinha cadeira cativa, de que nós precisávamos trabalhar mais, nós precisávamos estudar mais”, disse ao citar uma renovação inclusive no quadro de componentes da escola, que hoje tem sua comunidade muito mais espalhada pela cidade do que formada por residentes da Casa Verde.

Sobre sua função nesse processo, ele acredita que a importância central está em estabelecer uma boa ligação entre a diretoria executiva e o restante da escola. “O que eu procuro fazer sempre é pegar aquilo que é de vontade e aquilo que é possível e levar para que o componente execute. E as necessidades do componente e demais setores da escola, levar para a diretoria executiva”, contou.

“O diretor de carnaval tem que saber de tudo, evidentemente, que está acontecendo na escola. Desde uma simples coreografia de ala, um material utilizado na fantasia, até uma bossa da bateria, por exemplo, o andamento da escola, o tempo certo. Como um bom harmonia que nunca deixei de ser, trabalho com muita vontade na pista no dia do desfile”, relatou.

Regulamento e Julgamento

Não é raro ver lideranças das escolas de samba de São Paulo descontentes com o julgamento realizado na folia da cidade. Tiguês não foge à regra e pontua que, na sua visão, nem sempre a realidade apresentada na pista é refletida nas notas e justificativas dos jurados.

“Eu falo isso pela Império e não é choro de perdedor nem nada, mas a gente olha com muita atenção os quesitos plásticas, como alegoria, por exemplo. E o fato de o jurado não ver, de repente, a diferença entre uma alegoria do Império e de uma outra escola – que de repente não investiu tanto, que não tá com um acabamento tão legal – faz com que a gente entenda que a diretriz do jurado não é legal ou o regulamento e o critério de julgamento, precisam ser revistos”, defendeu.

“Quando a gente olha lá, diz ‘no minuto tal teve um problema com a evolução da escola’. A gente não conseguiu ver ainda até agora o buraco que o jurado achou entre o segundo carro e a ala da frente nesse ano, onde foi que o jurado de bateria tirou dois décimos da bateria do Império, que é reconhecida como uma das melhores do país. Não vimos até agora onde foi que o jurado conseguiu dar 9,6 de fantasia. Ou seja, a fantasia do Império, por nota, foi uma das três piores do carnaval. Então, se a do Império é ruim, eu não sei realmente o que é bom”, listou.

“Eu acho que essas mudanças agora que a Liga vai fazer serão muito benéficas para o carnaval. São muitas coisas para mudar. E nós nunca vamos chegar a um consenso. Mas a boa intenção de se querer mudar os critérios de julgamento a gente precisa ter”, afirmou.

2021 para a Império de Casa Verde

A Império não pretende mudar seu estilo de desfile caso o regulamento mude, segundo Tiguês. “É um estilo de desfile que preza pelo espetáculo, por deixar o componente solto, deixar a bateria ser considerada uma das melhores do Brasil, que preza pelo tamanho e no esmero do acabamento das alegorias. Se a gente não conseguir mudar o critério de julgamento, a gente vai ter que deixar o espetáculo mais frio, mais quietinho, a escola mais encaixotadinha – o que não é a função do carnaval”, disse.

Tiguês defende que, com a mecanização e o excesso de alas coreografadas, o carnaval perdeu a descontração. “Eu sempre falo para os componentes, principalmente os que chegam pela primeira vez: o carnaval tem uma palavra só, é alegria. Se você não tiver alegria para desfilar, esquece. E o critério de julgamento faz com que o componente esteja tenso. Se eu fosse um folião de primeira viagem que desfilasse um ano em uma escola de samba, dificilmente eu voltaria.Nós temos a concorrência dos blocos de rua, em que o cara pode fazer o que ele quiser. Lá ele pode ficar solto, não precisa ficar ouvindo ordem o tempo todo”, disse.

Botequim da SASP