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“O Dia em que a Terra Parou” – Conheça o enredo da Dragões da Real para 2021

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A Dragões da Real anunciou na noite desta terça, dia 28, por meio de suas rede sociais, o enredo em que a entidade levará para o desfile do grupo Especial no carnaval 2021, ano em que marca a volta do carnavalesco Jorge Silveira.

Com o título O Dia em que a Terra Parou, a escola da Vila Anastácio se inspira em uma canção de Raul Seixas, de mesmo nome, para abordar as diversas mudanças impostas por esse momento em que mundo está vivendo, diante da pandemia do coronavírus, e quais lições podemos tirar deste momento.

“A vida ensina que todo esse aprendizado só tem valor se ele se transforma em atitude concreta. O grande ensinamento é a solidariedade. Nós aceleramos o mundo: com isso, tornamos ele muito desigual para aqueles que não conseguem acompanhar o ritmo frenético da nossa época, pois só nós podemos estender a mão para erguer todos aqueles que precisam. No dia em que a Terra parou, nós pudemos respirar fundo. Aprendemos lições profundas. Fazer diferente daqui para frente, é com a gente mesmo. No dia em que a Terra parou, o mundo, então, se tornou um lugar de gente feliz”, diz trecho do texto criado pelo carnavalesco Jorge Silveira.

Segundo o presidente da entidade, Renato Remondini, o Tomate, a ideia do enredo partiu de Márcio Santana, diretor de carnaval da entidade, e que no final do março, perdeu sua mãe, vítima do coronavírus. Confira abaixo o texto que inspirou o enredo 2021:

“O dia que a Terra parou”

O vai e vem da metrópole silenciou. Os semáforos já não faziam mais sentido. A orquestra de freios e buzinas já não estava mais ali. As cidades, sempre céleres, pararam. A rua esvaziou. Foi de súbito. Não foi combinado. Naquele dia, a Terra parou.

Pela primeira vez, em muito tempo, foi possível ouvir o barulho ensurdecedor do silêncio. O sopro do vento percorrendo os arranha-céus. Sem o intenso deslocamento, era possível ver cores antes escondidas pela pressa do dia a dia.

Sem ônibus lotados, sem carros amontoados pelas pistas: só a paz se impunha. O céu começou a revelar seu azul mais límpido, suave e brilhante. Da selva de pedra alucinante, brota a natureza valente. Ela sempre esteve ali: rompendo as frestas do asfalto, se esgueirando entre os canteiros. Agora é a sua vez. Ela ressurge nos ensinando que estamos ocupando a sua casa, e não o contrário. Ela nos ensina uma forte lição de resiliência e perseverança. A frieza do concreto se curva então à generosidade e ao acalanto do bosque, retomando seu lugar passo a passo: nas ruas e em nossos corações.

Ao olhar as arvores florescendo pelas janelas de nossos castelos de ferro e vidro, é possível perceber a força de suas raízes. É preciso, então, fortalecer as nossas próprias. Com as mãos, alcanço um antigo livro na prateleira da sala. A poeira do tempo revela que a rotina louca da civilização não nos permite o sabor da viagem que um livro pode nos proporcionar. A leitura é a grande oportunidade da vida de revirar as memórias impressas pelos grandes mestres e colher seus ensinamentos. A educação ganha uma nova dimensão e relevância.

Cada capa de livro guarda dentro de si um universo infinito de possibilidades. O conhecimento partilhado por cada obra nos permite conhecer novos mundos. Ao caminhar por essas estradas imaginadas por cada autor, acabamos conhecendo um pouco mais de nós mesmos. E para isso acontecer, foi preciso a Terra parar: só assim nos permitimos olhar para dentro de nossas almas e viver novas vidas através das linhas deixadas por eles.

Nessa viagem de autoconhecimento, temos a chance de nos percebermos melhor. Sentir a alma e o corpo.Reconhecer a nossa natureza interna, seja ela física ou mental. A calma vista pela janela começa a inundar nossas vidas. A fé ecoa em meio aos corações. A busca pela espiritualidade nos conecta à essência do que significa ser humano. A mãe Terra ensina todos os dias a importância de buscarmos mais qualidade, de darmos o tempo certo ao nosso corpo e de buscarmos a saúde permanente, num estilo de vida novo.
E diante desta pausa, a mente se sente livre para perceber o mundo de forma mais sensível. O coração se torna leve e finalmente temos o tempo certo para reconhecer a arte de viver. É ela – a arte – que enche de brilho a alma. Quando o ponteiro do relógio parou, tivemos então a oportunidade de nos emocionarmos com as melodias. Só assim conseguimos ouvir os acordes do violino, chorar diante da força de um monólogo; perceber as cores da tela. É através da contemplação da arte que alimentamos a esperança de um futuro mais harmônico.

E a harmonia aprendida com os mestres da arte nos leva a mais importante lição: não há paz de verdade se ela é restrita. Não há felicidade plena, se ela não é plenamente dividida com nossos iguais. O mundo parou, mas o amor não pode parar. É preciso fazer chegar esse bom sentimento a todos aqueles que precisam dessa chama em seus corações. Foi preciso silenciar o ronco dos motores para que pudéssemos perceber que tem alguém que mora na esquina da sua vida, na frieza de uma calçada. É preciso espalhar as boas lições aprendidas com esse momento. Mas não bastam os bons sentimentos.

A vida ensina que todo esse aprendizado só tem valor se ele se transforma em atitude concreta. O grande ensinamento é a solidariedade. Nós aceleramos o mundo: com isso, tornamos ele muito desigual para aqueles que não conseguem acompanhar o ritmo frenético da nossa época, pois só nós podemos estender a mão para erguer todos aqueles que precisam.

No dia em que a Terra parou, nós pudemos respirar fundo. Aprendemos lições profundas. Fazer diferente daqui para frente, é com a gente mesmo. No dia em que a Terra parou, o mundo, então, se tornou um lugar de gente feliz.

Jorge Luiz Silveira
Carnavalesco

Botequim da SASP