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‘Por dentro dos enredos’: Como um filme, Vai-Vai conta a história do povo que formou São Bernardo do Campo

Por Lucas Malagone
Imagens: Dan Santana e Diego Florêncio/SASP Carnaval

Dando sequência à nossa série ‘Por dentro dos barracões’ do Grupo Especial, o destaque de hoje é o Vai-Vai. A maior campeã do carnaval paulistano levará para a avenida o enredo “Em cartaz: A saga vencedora de um povo heróico no apogeu da Vedete da Paulicéia”. Assinado e desenvolvido por uma comissão de carnaval formada por Marcão, Tati, Renato e Gleuson, o enredo tem como eixo narrativo a cidade de São Bernardo do Campo, apresentada sob uma ótica pouco convencional: a do cinema.

A proposta foge do chamado “enredo CEP”, modelo tradicional que percorre de forma cronológica a história de um município. No desfile, a trajetória de São Bernardo será contada pelos olhos das câmeras e pelas telas de cinema, com a construção e as conquistas da cidade retratadas como grandes produções cinematográficas. O fio condutor da narrativa será a história dos estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, responsáveis por um dos momentos mais emblemáticos do cinema brasileiro.

Fundada em 1949 pelo cineasta italiano Franco Zampari, ao lado do empresário Francisco Matarazzo Sobrinho, a Vera Cruz teve papel decisivo no desenvolvimento cultural e econômico da cidade, apesar de sua curta existência, encerrada em 1954. O primeiro setor do desfile destacará esse impacto, lembrando produções marcantes como Sai da Frente, primeiro filme protagonizado por Mazzaropi e grande sucesso de público, e O Cangaceiro, de Lima Barreto, obra premiada no Festival de Cannes e símbolo da projeção internacional do cinema nacional.

Apesar do prestígio artístico, a sequência de empréstimos bancários comprometeu a saúde financeira da companhia. Com a tomada do controle pelo Banco do Estado, os estúdios tiveram suas atividades encerradas no fim da década de 1950, encerrando um capítulo breve, porém fundamental, da história cultural brasileira — agora revisitado pelo Vai-Vai na passarela do samba.

“Na ficção de paixão, arte e utopia, ergueu-se um estúdio entre fábricas e canaviais. Não era apenas concreto, madeira e refletores — era um templo para o gesto, a fala e o olhar. Nasce o sonho da sétima arte produzida, dirigida e encenada por brasileiros: a Companhia Cinematográfica Vera Cruz!

Anos Dourados!

Os rostos nos filmes da Vera Cruz tinham a luz de um país que estava se descobrindo. Não era apenas cinema — era o Brasil tentando se enxergar, não mais com o filtro estrangeiro, mas com a lente da sua própria alma. Sonhar grande é coisa rara e os filmes da Vera Cruz, mesmo cobertos pela poeira dos anos, ainda brilham como relicários do tempo em que o Brasil acreditou que podia contar sua própria história com beleza, coragem e arte nas telas do cinema.

Atenção, senhoras e senhores. Tomem seus lugares. Apagaremos as luzes. Com vocês, uma grande produção brasileira!”
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola

Na sequência do desfile, o enredo destaca o papel fundamental do povo nordestino e da cultura caipira na construção e no desenvolvimento de São Bernardo do Campo. Esse processo é apresentado em diálogo direto com a industrialização da cidade, especialmente com a chegada e consolidação do polo automotivo, um dos principais marcos de sua história recente.

Berço de algumas das maiores fábricas de automóveis do estado de São Paulo, São Bernardo viu marcas como Volkswagen e Ford se instalarem, crescerem e estabelecerem uma relação simbiótica com o município, moldando sua identidade econômica e social. Esse período será retratado a partir do olhar da Vera Cruz, em um exercício imaginativo proposto pela comissão de carnaval, que brinca com a hipótese de o estúdio ainda estar em atividade.

Nesse contexto, a narrativa transforma a própria cidade em protagonista de uma série de produções cinematográficas fictícias. Os acontecimentos ganham linguagem de cinema: histórias são tratadas como filmes, figuras populares viram personagens e os diferentes momentos históricos surgem como obras dirigidas por um estúdio que, mesmo extinto, segue vivo na memória e no imaginário coletivo.

“Entusiasta com o advento do progresso, primeiramente surgido com a Vera Cruz, e com uma população ávida por trabalho e pelo progresso, surge um novo perfil de sociedade: a trabalhadora e industrial.

Neste cenário, o protagonismo é do operário — semente e chão de fábrica — de uniforme puído e surrado, manchado de suor e óleo do torno, do aço. Enquanto a máquina girava os dias, a marmita de arroz e feijão esfriava e requentava a comida e a esperança.

No coração febril, roncavam motores, o aço erguia sonhos e silêncios. Era a indústria — ventre de ferro e fumaça — que paria o mito do desenvolvimento. Lá dentro, homens viravam engrenagem, de seus suores brotavam o progresso.

Como alegoria de um futuro promissor, entre fuligem e faíscas, produziam-se máquinas, carros e motores. A linha de montagem, na verdade, era linha de espera, costurando futuro com linha remendada. E cada parafuso, porca ou esteira, guardava uma história calada.

É vez e hora da galhardia presente no espírito do trabalho e do progresso!”
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola

Nos setores finais do desfile, o Vai-Vai abordará a importância da luta sindical em São Bernardo do Campo, cidade reconhecida como um dos berços do sindicalismo brasileiro. O enredo percorre a formação e a consolidação dos movimentos sindicais, destacando sua relação direta com o surgimento e a organização dos partidos ligados à classe trabalhadora.

Mais uma vez sob a lente simbólica da Vera Cruz, a comissão de carnaval utiliza a linguagem cinematográfica para traduzir esse período histórico. Filmes fictícios, personagens e narrativas são criados para representar a interseção entre sindicalismo e política, evidenciando a relevância desse processo não apenas para a cidade, mas para a história social e política do Brasil.

“A indústria crescia como concreto em cidade, levantando prédios e promessas no ar. Mas o povo seguia no subsolo, sem elevador para alcançar direitos e seu quinhão da prosperidade. Refém do domínio, da guerra, da fome e da morte, perdurou.

A indústria cresceu — é verdade —, mas não curou a ferida aberta. Buscou o progresso a qualquer custo e faltou justiça na oferta. Desenvolvimento com gosto de espera, em trilhos que correm sem rota e com futuro preso à esteira.

Com um figurino refinado, a sociedade se curvava à modernidade, mas no espelho do aço reluzia o reflexo de uma falsa liberdade. Entre as prensas e as peças, nascia a busca por justiça e igualdade. O trabalho será ponte, e não prisão, o descanso será direito, e não trauma.

O roteiro é de luta, é de busca por liberdade. Ela não pede licença à censura, nem espera a permissão do patrão. O grito tem voz de gente comum, é grito que rompe algema e padrão. Não era só por salário, era por dignidade.

Não era só por folga, era por liberdade. Era o direito de dizer “basta”, sem que o medo calasse a vontade. Foi conquista com garra e suor. A união de mil vozes para que nenhuma falasse só. Foi chão partilhado, decisão coletiva. O operário se viu por inteiro e não apenas parte da estrutura”.
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola

Para encerrar o desfile, o Vai-Vai aposta em um desfecho grandioso ao consagrar São Bernardo do Campo como a grande “vedete” de São Paulo e do Brasil. A cidade surge como a estrela principal do grande filme criado e produzido pela escola, assumindo definitivamente o papel de protagonista da narrativa apresentada ao longo da avenida.

Na leitura proposta pelo enredo, essa vedete não deixa a cena: permanece em cartaz, ocupando as telas e encantando o público, como uma obra que atravessa gerações. O desfile se despede com ares de superprodução cinematográfica, um verdadeiro blockbuster carnavalesco, no qual a comunidade da Saracura também assume papel central, celebrando sua história, identidade e o protagonismo nesse espetáculo que o Vai-Vai leva ao Sambódromo.

O Vai-Vai será a sexta e penúltima escola a entrar na avenida na sexta-feira de carnaval.

Confira abaixo o samba-enredo do Vai-Vai no Botequim da SASP:

Botequim da SASP