Por Lucas Malagone
Foto: Woody Henrique/Liga-SP
Dando sequência à nossa série de enredos do Grupo Especial de São Paulo, o destaque de hoje é a Tom Maior, campeã do Grupo de Acesso 1 em 2025. A Vermelho e Amarelo retorna à elite do samba paulistano propondo uma viagem espiritual em homenagem à cidade de Uberaba (MG). Com o enredo “Chico Xavier – Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”, desenvolvido pelo carnavalesco Flávio Campello — que chega ao seu quinto carnaval à frente da escola —, a Tom promete um desfile carregado de sensibilidade, emoção e misticismo. A narrativa apresenta as belezas, histórias e encantos de Uberaba sob uma perspectiva singular: a espiritualidade de Chico Xavier, conduzindo o público por uma jornada além do plano material.
Um elemento que reforça ainda mais a aura simbólica do desfile é o fato de a Tom Maior se apresentar, pela primeira vez, exatamente no dia de seu aniversário, agregando significado especial à apresentação no Anhembi. A proposta de Flávio Campello se afasta do formato tradicional dos chamados ‘enredos CEP’. Ao escolher uma das personalidades mais emblemáticas ligadas à cidade de Uberaba, o carnavalesco constrói uma narrativa dupla, que entrelaça a trajetória espiritual de Chico Xavier com a história e a identidade da cidade mineira. Essa conexão se dá por meio de uma carta psicografada, recurso central da sinopse, em que Chico, a partir de outro plano espiritual, relata as belezas naturais, curiosidades e a rica herança cultural de Uberaba.
A carta, datada simbolicamente para o dia do desfile, confere ainda mais força conceitual ao enredo, ampliando o caráter poético e espiritual da proposta e prometendo um espetáculo que une fé, memória e identidade cultural no retorno da Tom Maior ao Grupo Especial.
“Uberaba, 14 de fevereiro de 2026.
Queridos irmãos e irmãs,
Envolvemo-nos na paz serena do Senhor, que nos acalenta com a sua luz e harmonia. Com imenso carinho, venho à presença de todos para compartilhar as memoráveis reminiscências espirituais sobre a mística cidade de Uberaba, um solo sagrado que abrigou meu espírito na minha jornada terrena desde 1959 até o momento do meu desencarne.
Nesta missiva, represento o Pai Celestial, oferecendo esta revelação grandiosa para uma terra de luz inigualável.
Há tempos imemoriais, Espíritos Superiores foram enviados a este orbe, com a missão de observar os avanços humanos e selecionar um canto especial deste plano físico para plantar as sementes divinas no solo útil e generoso escolhido pelo Pai Celestial.
A mediunidade aqui revelada é a comprovação da continuidade da vida e da evolução como um sublime ato de misericórdia divina, proporcionando a permanência do amor e da fé.
Esta escolha divina veio abençoar a terra sob a proteção cintilante da constelação do Cruzeiro do Sul, onde pulsaria o coração vibrante de um gigante chamado Brasil. Sob as mãos benevolentes do Pai e da falange de Seres de Luz que O acompanharam nesta magna missão, provas e vitórias oferecidas, e no alvorecer radiante, refletindo-se ia a face organizada de várias raças, que ali encarnariam com a missão sagrada de aprenderem a tolerância e o amor fraterno”
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola
A partir desse ponto, Chico passa a narrar a história da cidade que o acolheu a partir de 1959, destacando as origens do local até chegar às contradições que marcam sua trajetória. Uberaba surge como um território que, desde o período colonial, foi intensamente explorado, mas que também se consolidou como polo de produção e desenvolvimento. A narrativa ressalta a força econômica da região, que cultivou diferentes ciclos agrícolas — como o café e a cana-de-açúcar — e ganhou projeção internacional com a pecuária, especialmente por ser a terra do boi zebu, rapidamente exportado para diversas partes do mundo. O enredo também aborda a importância estratégica da cidade durante a Guerra do Paraguai.
Na sequência, Chico evidencia o desenvolvimento espiritual e a forte ligação religiosa de Uberaba, revisitando a história de suas igrejas e as bênçãos que elas representam para moradores e visitantes. Ganham destaque a Igreja de São Domingos e o Santuário da Medalha Milagrosa, símbolos de fé e devoção na cidade. O percurso segue mostrando o avanço de Uberaba rumo à modernidade, com a consolidação de seu parque industrial e a evolução da pecuária por meio da tecnologia e da manipulação genética. O enredo culmina na riqueza cultural do município, ressaltando a preservação de espaços de grande relevância para a história de Minas Gerais e do Brasil, como o Mercado Municipal, além de memoriais e casas de memória que mantêm vivo o legado de Chico Xavier.
“Em Uberaba, o Espiritismo encontrou solo divino e floresceu exuberante. Foi no ano de 1959 que aportei nesta terra sagrada, gravando com profundidade as páginas da história. Uberaba acendeu como farol para aqueles que buscam a iluminação espiritual, consagrando-se como a Terra de Chico Xavier, um epíteto que me enobrece e eterniza a renovação espiritual do âmago da cidade.
Como as estações da vida, eis que surgem o momento de minha despedida. Num dia repleto de júbilo, quando o povo brasileiro celebrava com alegria, retorno ao plano espiritual, contemplando com admiração e gratidão o respeito e o afeto que envolveu minha trajetória. A evolução da vida, sob este pedaço de terra que um dia chamei de lar, é um testemunho de amor.
Oh, querida Uberaba, nossa eterna amada!
Que seu solo sagrado continue a ser nutrido pelo suor honrado do trabalho e pelas orações fervorosas de seus filhos. Que suas águas límpidas continuam a espelhar o brilho da esperança, alimentando os sonhos daqueles que aqui vivem, e a luz divina que é herança do nosso Pai Celestial.
Com profundo amor e infinita gratidão,
Chico Xavier”
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola
Por fim, no último setor do desfile, a escola retoma o eixo da espiritualidade ao estabelecer uma ligação direta entre a vida e o legado de Chico Xavier. O enredo se encerra como um grande manifesto de amor a Uberaba, apresentada como uma terra abençoada pelos céus. Dessa forma, em uma verdadeira carta de amor marcada por história, fé e espiritualidade, a Tom Maior busca reafirmar sua força no Grupo Especial, celebrando o retorno à elite do carnaval paulistano sob a simbólica mensagem divina de consagração em sua volta.
A Tom Maior será a sexta e penúltima escola a desfilar no sábado de carnaval, no Sambódromo do Anhembi.
Confira aqui o samba-enredo da Tom Maior durante o Botequim da SASP: