Por Lucas Malagone
Imagens: Dan Santana e Diego Florênio/SASP
No penúltimo conteúdo da série ‘Por dentro dos enredos’, vamos mergulhar na proposta da atual vice-campeã do Carnaval paulistano. Em 2026, o Acadêmicos do Tatuapé levará ao Anhembi o enredo “Plantar para colher e alimentar – Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra”, desenvolvido pelo carnavalesco Wagner Santos, que assina seu oitavo desfile pela agremiação da Zona Leste. A proposta é colocar em pauta a agricultura familiar, a necessidade de uma reforma agrária e o cultivo sustentável, em busca do tricampeonato.
O enredo propõe uma reflexão sobre os meios de produção de alimentos no Brasil e aborda um tema considerado sensível por parte da sociedade. Para embasar a narrativa, a escola contou com a colaboração do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na pesquisa e construção do desfile. A ideia é apresentar na Avenida uma visão sobre formas mais sustentáveis de produção e consumo, além de destacar a importância da agricultura familiar como alternativa aos grandes conglomerados do agronegócio.
Mas, afinal, o que é a reforma agrária? Trata-se de um processo de redistribuição fundiária promovido pelo Estado com o objetivo de democratizar o acesso à terra. Em cenários de alta concentração fundiária, com grandes extensões nas mãos de poucos proprietários, os chamados latifúndios, a função social da terra deixa de ser plenamente cumprida, ampliando desigualdades e favorecendo a especulação. A reforma agrária busca, em sua essência, promover uma divisão mais justa, beneficiando pequenos produtores e fortalecendo a agricultura e a pecuária familiar.
Fundado em 24 de janeiro de 1984, o MST nasceu da organização de trabalhadores rurais que defendiam uma reforma agrária mais ampla no país. Atualmente presente em 24 estados brasileiros, o movimento reúne centenas de milhares de famílias assentadas e acampadas, atua na produção de alimentos e organiza a comercialização de produtos oriundos da reforma agrária nas cidades. Ao trazer esse debate para o Sambódromo do Anhembi, a Tatuapé promete um desfile que une crítica social, conscientização e a defesa de um modelo mais sustentável de desenvolvimento no campo.
Para a plena compreensão da proposta do Tatuapé, é fundamental entender o conceito de agricultura familiar, tema diretamente relacionado à pesquisa desenvolvida com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A agricultura familiar é caracterizada pelo cultivo da terra realizado por pequenos proprietários rurais, tendo como principal força de trabalho o próprio núcleo familiar, com produção diversificada e, em muitos casos, voltada ao abastecimento interno. Dados recentes indicam a relevância desse modelo produtivo: a agricultura familiar é responsável por cerca de 35% dos alimentos produzidos no mundo e por aproximadamente 70% dos alimentos consumidos no Brasil. Ao levar esse debate para a Avenida, a escola reforça a importância desses trabalhadores na segurança alimentar e na sustentabilidade do país.
“No princípio, era a terra; era semente.
Tupã, senhor dos trovões e da criação, soprou o divino alento sobre o mundo, e fez do chão um ventre fértil. De suas mãos, nasceu a vida, e da terra molhada, brotaram os primeiros povos – os povos originários, os verdadeiros donos da terra, filhos do Sol, irmãos da Lua, guardiões da mata, filhos da esperança. Entre os raios de sol, semeavam-se os ciclos da natureza. Florestas se ergueram em reverência, rios cantaram em correnteza sagrada. Tudo era comunhão, tudo era respeito.
Ele gerou as deusas da abundância: a Deusa da Agricultura — que ensinou a semear; a Deusa da Fertilidade — que fez brotar o amor da terra; e a Deusa da Fartura — que pintou os campos de alimento. Mas chegaram os invasores do além-mar. De Portugal vieram com cruz e espada, cercaram o mundo com cercas e decretos, e disseram que a terra agora tinha dono. Nascia o latifúndio, a divisão sem justiça, a herança da dor que ainda grita: Tem muita terra sem gente, e muita gente sem terra.”
* trecho extraído da sinopse oficial da escola
A narrativa proposta pelo Tatuapé começa na gênese do mundo, quando a terra era semente e ventre fértil, símbolo de comunhão, abundância e equilíbrio. É o tempo em que os povos originários surgem como os primeiros guardiões do solo, das florestas e da vida, respeitando os ciclos da natureza e reverenciando as divindades ligadas à fertilidade. Com a chegada dos invasores, porém, instauram-se as cercas, os decretos e a lógica do latifúndio.
A terra passa a ter dono, e abre-se uma ferida histórica que atravessa séculos: a concentração fundiária que deixa muita terra nas mãos de poucos e muita gente sem acesso a ela. A partir daí, o enredo percorre caminhos de resistência, exaltando a luta do povo negro nos quilombos, o saber ancestral do cultivo para a subsistência e a contribuição dos povos imigrantes na formação de um Brasil plural.
O desfile também revisita conflitos emblemáticos da história nacional, como a Guerra de Canudos e a Guerra do Contestado, marcos de disputas por terra e justiça social. Ao costurar passado e presente, a Tatuapé constrói uma linha narrativa que evidencia como a questão agrária permanece central na formação e nos desafios do país.

“Mas a ganância e a cobiça humana não se calam: derruba florestas, envenena solos, espalha o veneno com mãos de lucro. A cobiça se disfarça de progresso, mas mata o amanhã. Os latifúndios seguem se alastrando, como praga que sufoca o broto. Vêm as secas, queimando a esperança, e as lavouras gemem sob o peso da peste: pragas semeadas pela ambição. O chapéu-de-bruxa encobre os campos, como sombra da desordem natural, e a colheita chora no silêncio da terra.
Tem muita terra sem gente, e muita gente sem-terra. O querer do pedacinho de chão insiste em germinar. E nos campos, enquanto a esperança brota em segredo, os aliados pequenos vigiam: abelhas polinizam os sonhos, joaninhas guardam os brotos, libélulas dançam com a luz, aranhas tecem teias de equilíbrio. Capuchinha, funcho, girassol —plantas que protegem com perfume e cor, dizem que a natureza é sabedoria que cura.
Na roça, o homem do campo com sua fé, ora, agradece ao sol, saúda a chuva, faz da casa um altar de barro e ternura.Galo canta e desperta o meu lugar, terra fértil de história, memória viva do chão. Ali, o porco, a vaca leiteira, a cabra e a galinha com seus ovos no quintal, as crianças cantam para plantar. Milho cresce, feijão floresce, que o pão da terra nunca falte! O homem do campo ara a terra com bravura e devoção, cultiva a terra feito as flores que cobrem esse chão.Arar, semear, cuidar, colher os frutos desse chão: é essa a liturgia do lavrador, em cada estação, em cada oração.
E a agricultura crioula resiste. Com sementes guardadas em latas antigas, com canto e mutirão. Lavrador, com as mãos calejadas, lavra o chão. Milho crioulo, arroz orgânico, café de quintal, cacau de esperança. Verduras que brotam em quintais humildes, legumes regados com fé e paciência. Tua arte é cultura, o ofício do camponês é a agricultura. Sabedoria para cultivar, preservar essa riqueza.
Terra farta, gente feliz. Porque a terra dividida com justiça é a colheita que alimenta todos. Divide esse chão, para colher. Semear o grão é plantar e colher para alimentar o mundo. É a festa da partilha, o banquete da sustentabilidade. Plantar com a natureza — e não contra ela —é semear futuro, é colher dignidade. É preciso progredir, dividir e proteger. E então vem a grande festa da colheita! A roça canta, a terra sorri, e o povo desfila sua vitória. A enxada vira estandarte, a palha é fantasia, o suor vira brilho na avenida. Pois a Terra é mãe, é altar, é amanhã.
E quem planta com amor, colhe o eterno carnaval da fartura. Colhe o amanhã no hoje, colhe a vida com alegria, colhe a esperança feita flor, e samba — samba como quem agradece: por cada semente, por cada fruto, por cada homem do campo, que nunca desistiu.”
* trecho extraído da sinopse oficial da escola
Nos setores finais, o Tatuapé propõe uma reflexão sobre os impactos da ganância que devasta florestas e contamina o solo. Em contraponto a esse cenário, o desfile exalta a resistência camponesa, a agroecologia, as sementes crioulas, os mutirões e a fé do homem do campo, símbolos de um modo de produzir que respeita os ciclos naturais e valoriza o equilíbrio entre ser humano e meio ambiente. A narrativa destaca um jeito de plantar em harmonia com a natureza, reforçando a ideia de que desenvolvimento e sustentabilidade podem caminhar juntos. É a defesa de um modelo que privilegia a cooperação, a diversidade e o cuidado com a terra.
No desfecho, a escola celebra a partilha, a justiça social e a terra como mãe generosa, que alimenta e acolhe. Em clima de esperança e fé, o Tatuapé aguarda a coroação na Avenida e as bênçãos do chão fértil para conquistar o tão sonhado tricampeonato do Carnaval paulistano. A escola será a quarta a desfilar na sexta-feira de carnaval.
Confira abaixo o samba-enredo do Acadêmicos do Tatuapé no Botequim da SASP: