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‘Por dentro dos enredos’: Sonhando com o bicampeonato, Águia de Ouro viaja para Amsterdã e apresenta a Cidade Libertária

Por Lucas Malagone
Foto: Woody Henrique/Liga-SP

Dando sequência à série ‘Por dentro dos enredos’, hoje o destaque é a Águia de Ouro, segunda escola a desfilar no sábado de Carnaval. Para 2026, a agremiação levará ao Sambódromo uma homenagem à cidade holandesa de Amsterdã, com o enredo “Mokum Amsterdã: o voo da Águia à cidade libertária”, desenvolvido pelo experiente carnavalesco Alexandre Louzada, que retorna ao carnaval paulistano neste ano.

A proposta da escola é mergulhar na história e na identidade de uma cidade frequentemente associada à liberdade, aos prazeres e à diversidade cultural, mas que também se destaca por sua relevância artística, social e política ao longo dos séculos. Amsterdã, capital da Holanda, é carinhosamente chamada de Mokum por seus habitantes, termo de origem iídiche que significa “lugar seguro”. A expressão inspira o título do enredo e serve como ponto de partida para a narrativa, que busca apresentar as contribuições da cidade para o mundo nas artes, na música, na cultura e nos ideais de liberdade e tolerância.

O fio condutor da história será apresentado pelos Kabouters, gnomos do folclore holandês, que assumem o papel de narradores da viagem. São eles que convidam a Águia — símbolo da escola — a alçar voo rumo a Mokum, dando início a uma jornada lúdica e sensorial pelos encantos, contrastes e riquezas da cidade libertária.

“É noite de diversão!

Kabouters, guardiões milenares dos encantos invisíveis, rompem silêncio e convidam a nossa Águia a abrir suas asas e sobrevoar a terra onde florescem os sonhos, ilumina a criatividade e firmam-se as asas da liberdade! Abre-se o portal mágico! Goede reis (Boa viagem)!

Ventos que sopram do Norte, que se torna brisa na cadência do samba, fazem girar o moinho que nos leva à terra repleta de inspirações, onde majestosa Águia da Pompeia inicia a sua viagem!

Chega então nessa cidade encantada, entrecortada de canais que são como ruas de água a espelhar a arte de seus grandes mestres, gênios de onde flui a expressão vibrante das cores da ponta de seus pincéis. São traços que formam imagens, retratos que matizaram esse lugar e sua gente, eternizando-as em telas de um ontem que se tornou para sempre.

Em cada recanto de suas vias artísticas, reside impregnada as marcas de sua rica história, de seus personagens marcantes. “MOKUM”, seu codinome, um lugar onde ao longo do tempo a liberdade resolveu morar”.
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola

A abertura do desfile convida o público a percorrer as artes que marcaram a identidade de Amsterdã, tendo como primeiras imagens os tradicionais moinhos de vento, símbolos históricos da paisagem e da engenhosidade holandesa. Em seguida, o enredo se debruça sobre a obra de Vincent van Gogh, aprofundando a relação entre a vida na cidade e a inspiração para algumas de suas criações mais emblemáticas. Embora só tenha alcançado reconhecimento após a morte, o pintor é apresentado como um dos grandes nomes da história da arte mundial. Obras como “A Noite Estrelada”, “Campos de Trigo com Corvos” e “Noite Estrelada sobre o Ródano” ganham destaque, além de referências ao conjunto de sua produção artística.

O desfile também abre espaço para outros grandes nomes das artes holandesas que passaram por Amsterdã e ajudaram a projetar a cidade como um importante centro intelectual e cultural. Entre eles, Rembrandt, com obras como “O Moinho”, “A Moça e o Cavalheiro”, “O Artista em seu Estúdio” e “A Lição de Anatomia do Dr. Tulp”, que serão evocadas ao longo da narrativa. Já o escritor e poeta Joost van den Vondel terá sua contribuição literária representada de forma sintetizada na avenida, reunindo referências às quase cem obras entre contos e poesias que marcaram sua trajetória, legado eternizado também no tradicional Vondelpark, um dos parques mais conhecidos da cidade.

O enredo, no entanto, não se limita às glórias culturais. A narrativa também aborda momentos sombrios da história de Amsterdã, como a Peste Negra e o Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Esse trecho do desfile ganha contornos mais densos e emocionais a partir da história de Anne Frank e de seu famoso diário, símbolo da dor, do medo e do sofrimento vividos pela população judaica naquele período.

“Cidade que se move sobre duas rodas, de espiritualidade plural, de “consciência verde”, que inspira ao mundo a carregar as heranças do passado, respeitando as diferenças, educando para o futuro, avançando na modernidade. Educando para viver a liberdade e não a libertinagem.

Amsterdã é o berço das ideias que permitem ser livres. Capital simbólica do pensamento que não se cala, da filosofia moderna que inspira a humanidade. Nesta terra, os sentimentos não se escondem no peito — ganham asas nas palavras e vivem eternos nas páginas daquele diário que o mundo jamais esqueceu. És obra de Deus, dos desafios arquitetônicos da natureza. És, porém, um feito do homem que em sua capacidade te transformou em mosaico de “Canteiros” de fertilidade e moradia de um povo que vive a felicidade.

Terra vanguardista! Pioneira em tantos feitos: dos estudos dos mares, dos céus, do dinheiro e do corpo. Corpo onde não mora o pecado, coexiste no calor rubro do seu “Distrito Vermelho”. É uma vitrine de prazeres, um mergulho livre dos tabus de todos os sentidos. E por falar em tabus, essa terra entende que a liberdade do gênero vai muito além do arco-íris. Essa terra entende que a sua folha verde pode curar. Aqui cada um pode acender o que acalma sua alma, que cura o seu corpo, sem que o vento da intolerância apague a brasa da liberdade”.

* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola

Nos setores finais do desfile, a Águia de Ouro exalta o caráter vanguardista e libertário de Amsterdã, reforçando o significado de Mokum como a capital da diversidade. A narrativa evidencia como a cidade se consolidou internacionalmente como um espaço de convivência entre diferentes identidades, culturas e modos de vida.

Entre os destaques está o Distrito da Luz Vermelha, a área mais antiga de Amsterdã e um dos símbolos mais conhecidos de sua postura liberal. A região, historicamente ligada à chegada de marinheiros ao porto desde a Idade Média, é apresentada como parte da construção social e econômica da cidade. As tradicionais fachadas iluminadas em vermelho, as vitrines e a presença de casas noturnas, sex shops e museus temáticos compõem o cenário retratado na avenida. Outro momento de forte impacto visual é a referência à Parada LGBTQIA+, considerada uma das maiores e mais importantes do mundo, símbolo da defesa da diversidade, do respeito e da liberdade de expressão.

O enredo também aborda a projeção internacional de Amsterdã como uma das primeiras capitais a legalizar o uso da maconha, tanto para fins medicinais quanto recreativos. Os tradicionais coffee shops, conhecidos por oferecer produtos derivados da cannabis, surgem como parte do imaginário contemporâneo da cidade. A sustentabilidade aparece como outro pilar da narrativa. Reconhecida mundialmente pelo incentivo a meios de transporte limpos, Amsterdã tem na bicicleta um de seus principais símbolos urbanos, presente em praticamente todos os cantos da cidade. O desfile ainda celebra a vida noturna e o espírito festivo da capital holandesa, que também se destaca como uma das capitais da cerveja na Europa, onde a diversão movimenta ruas, praças e canais ao cair da noite.

“És, por fim, acima de tudo, a cidade que celebra e vive intensamente todos os momentos! É no meio desta imensidão de tulipas que o seu povo dança livremente com seus sapatos de madeira. Por aqui que é possível viver suas lendas e seus sabores. É aqui que a paixão pelo futebol não perece. Aumente o som e deixe a música eletrônica rolar!

Realmente, Amsterdã é uma terra encantada e nessa noite recebe a nossa Águia, no Rio Amstel com uma festa real tal como o nosso querido carnaval! Saudamos os reis: o nosso momo e o holandês! Um brinde com samba e cerveja para a cidade que nos inspira viver a liberdade! Vamos nos embriagar de felicidade nesse rio de cerveja! Sejamos felizes nesta festa pulsante de cor laranja!

Voa, Águia! Permita-se viver tudo que esta cidade tem a oferecer! Voe com destino da liberdade! Wees blij”
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola

Encerrando o desfile, a Águia de Ouro transforma a avenida em uma grande celebração popular. Guiados pelos gnomos narradores, o público é apresentado a uma cidade que vibra com o futebol, canta, dança e vive intensamente a alegria coletiva. Do alto, a Águia sobrevoa Amsterdã e promove o encontro simbólico entre o rei de lá, representante da monarquia holandesa, e o rei de cá, o tradicional Rei Momo, em um brinde à vida marcado por música, festa e cerveja.

Com um desfecho marcado pelo espírito libertário e festivo da capital holandesa, a escola encerra sua apresentação exaltando uma das cidades mais emblemáticas do mundo e apostando em um desfile vibrante, leve e popular. Segunda escola a desfilar no sábado de Carnaval, no Sambódromo do Anhembi, a Águia de Ouro entra na avenida em busca de uma apresentação consistente e do sonho de conquistar sua segunda estrela no carnaval paulistano.

Confira abaixo o samba-enredo da Águia de Ouro no Botequim da SASP:

 

Botequim da SASP