Por Lucas Malagone
Dando sequência às nossas matérias, hoje vamos falar sobre o enredo de 2025 da atual campeã do Grupo de Acesso 1, a Estrela do Terceiro Milênio. Sexta escola a desfilar no sábado de carnaval (01/03), a Milênio vem com um enredo forte e que promete impactar o Anhembi com um grande manifesto em prol da diversidade e contra a homofobia. Com o título “Muito além do Arco-Íris – Tire o Preconceito do caminho que nós vamos passar com o Amor”, desenvolvido pelo carnavalesco Murilo Lobo, a entidade do Grajaú promete abraçar a comunidade LGBTQIAPN+ não só pelo Brasil, mas pelo mundo.
O enredo é definido pela própria escola como um grande manifesto que denuncia a violência, o preconceito e a luta pelos direitos da comunidade LGBTQIAPN+. Além disso, a escola irá apresentar e reverenciar grandes nomes que lutaram pelos direitos da comunidade ao longo dos anos e a representatividade cultural desta enorme comunidade na música, nas artes, filmes e televisão.
Em um extenso vídeo, de mais de 30 minutos, lançado no primeiro semestre de 2024, a Milênio destrincha o seu tema em diversos tópicos, alguns sensíveis e outros que indicam que muitos consideram já ter passado da hora dessa extensa e importante comunidade ter sua representatividade em nossa sociedade de forma mais ativa.
O primeiro ponto que o enredo traz é uma reflexão sobre a violência que a comunidade sofreu principalmente da religião católica, que sempre afirmou que a homossexualidade seria um pecado. Durante os séculos, a Igreja condenava à fogueira os homossexuais, o que move à reflexão sobre até que ponto reprimir a sexualidade das pessoas pode afetar sua fé e seus valores. Se o amor é cristão, porque devemos reprimir o amor entre pessoas do mesmo sexo?
Com essa violência, vem o acolhimento principalmente nas religiões de matriz africana, que acolheram a comunidade das agressões sofridas no dia a dia. Ali, não precisavam viver em pecado, eram abençoados pelos Orixás, pelos pais de santo e pelas religiões como a umbanda e o candomblé. Assim, a escola mostra como é forte a ligação dos LGBTQIAPN+ com essas religiões.
O enredo ainda apresenta as denúncias sobre os mais diversos tipos de violência que a comunidade LGBTQIAPN+ sofreu ao longo das décadas e segue sofrendo diariamente na nossa sociedade. Um ponto sensível que a narrativa do enredo toca é o preconceito com o estigma: “Seria Doença?”. A ideia é mostrar os absurdos que a comunidade teve de passar ao longo da história, nas mãos de médicos e cientistas preconceituosos buscando a chamada “Cura Gay”, com o uso de eletrochoques, ingestão de medicamentos, castração química (essa relacionada muito com os campos de concentração), entre outros.O enredo ainda apresenta o tema do surto de HIV, que teve um boom na década de 1980 e durante muito tempo foi relacionada exclusivamente aos homossexuais. Isso aumentou o preconceito e a violência física e psicológica, sem contar com os inúmeros registros de direitos humanos violados àqueles que contraíram o vírus.
O enredo denuncia também as violências domésticas que muitos sofreram e sofrem até hoje em suas próprias casas. Muitos obrigados a viverem marginalizados, em condições subumanas e de prostituição, muito em função da falta de acolhimento daqueles proximos a eles. A escola ainda iré relembrar que homofobia e transfobia são crimes tipificados no Código Penal desde 2019, em ação referendada pelo Supremo Tribunal Federal.
A escola fechará seu desfile com uma grande celebração à cultura LGBTQIAPN+, reverenciando suas músicas, personalidades, filmes e peças famosas. Alguns artistas reverenciados brasileiros como Maria Bethânia, Daniela Mercury, Paulo Gustavo, Marco Nanini, Miguel Falabella, Cássia Eller, Nany People, Ney Matogrosso, Ludmila, Jorge Lafond, Lina da Quebrada, Ana Carolina e Sandra de Sá. A ideia é mostrar a rica variedade de cultura que a comunidade LGBTQIAPN+ apresenta em nossa sociedade. Por fim, a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+, que em sua edição paulista é considerada a maior parada do mundo pelo Guinness Book, fecha o enredo da escola.
Confira o samba da Estrela do Terceiro Milênio: