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Por dentro dos enredos: Contando a lenda de Oxum, Barroca Zona Sul sonha com redenção e lugar entre as campeãs

Por Lucas Malagone
Imagens: Dan Santana e Diego Florêncio/SASP Carnaval

Dando sequência à nossa série ‘Por dentro dos enredos’ do Grupo Especial, o destaque agora é a Barroca Zona Sul. Após ficar com a 12ª colocação no último carnaval, a Verde e Rosa entra na avenida com o desafio de buscar redenção e protagonismo. Em 2026, a agremiação vive um momento simbólico: pela primeira vez, encerra uma noite de desfiles no Grupo Especial, sendo a sétima e última escola a se apresentar na sexta-feira de carnaval.

Fiel à sua identidade, a Faculdade do Samba volta a apostar no universo dos orixás com o enredo “Oro mi Maió Oxum”, uma grande homenagem a Oxum. A proposta levará para a avenida a história, a mística, os rituais e os cultos dedicados à orixá das águas doces, do amor, da fertilidade e da prosperidade.

O enredo é desenvolvido pelo carnavalesco Pedro Alexandre, o Magoo, que assina seu terceiro carnaval consecutivo na Barroca. A expectativa é de mais um desfile forte visualmente e carregado de emoção, prometendo envolver o público do Anhembi e reforçar a busca da escola por um lugar entre as grandes campeãs do carnaval paulistano.

”O BARULHO DAS ÁGUAS TORNA-SE TRILHA SONORA PARA AS HISTÓRIAS QUE AGORA VOU CONTAR,
RETORNO A UM PASSADO DISTANTE E ESCOLHO O MAIS ANTIGO DOS ITANS PARA COMEÇAR.
OXALÁ MEU PAI, CRIADOR DE TUDO, USOU DE SUA INFINITA ENERGIA PARA ME DAR UMA IMPORTANTE MISSÃO,
MIGRAR POR TERRAS DESCONHECIDAS ATÉ ENCONTRAR ALGUÉM PURO DE CORAÇÃO.
INICIEI MINHA JORNADA E CONTEI COM A AJUDA DE EXÚ, O ORIXÁ MENSAGEIRO,
MEU CAMINHO FOI TRAÇADO NOS BÚZIOS DE ORUNMILÁ E FUI A ESCOLHIDA POR ELE EM JOGO DE TABULEIRO.
ANDEI E PEREGRINEI, ATÉ ACHAR ALGUÉM DIGNO DE SIMBOLIZAR A NOSSA FÉ,
IMACULADO, PINTADO E RASPADO EM RITUAL, ENCONTREI E INICIEI A PRIMEIRA PESSOA NO CANDOMBLÉ”
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola

Antes de tudo, é fundamental apresentar quem é Oxum. Na tradição iorubá, ela é a orixá que reina sobre as águas doces, sendo associada à beleza, à fertilidade, à riqueza, à sensibilidade e ao amor. Intimamente ligada tanto à prosperidade espiritual quanto material, Oxum também simboliza a vaidade, o cuidado e o empoderamento feminino. Sua representação clássica é a de uma mulher africana elegante, adornada da cabeça aos pés com joias de ouro, sentada à beira de um rio, segurando um espelho dourado enquanto amamenta um bebê em seu colo. Oxum é cultuada no Candomblé, na Umbanda e em diversas religiões afro-americanas.

Na mitologia iorubá, Oxum é filha de Iemanjá e Oxalá. Ao lado de Iansã e Obá, foi uma das esposas de Xangô. É também mãe de Logunedé, orixá menino que compartilha de seus axés. Considerada uma das orixás mais belas e sedutoras, Oxum teria conquistado o amor de Xangô oferecendo tudo o que possuía. Os itãs — narrativas sagradas da tradição iorubá — contam que, desejosa de aprender os segredos do oráculo de Ifá, teve seu pedido inicialmente negado por Orunmilá. No entanto, ao se aproximar de Exu, aprendeu os mistérios do oráculo, passando a deter o conhecimento de Ifá. Seu nome deriva do rio Osun, localizado na Nigéria.

Um dos itãs que promete grande destaque no desenvolvimento do enredo é o que narra como Oxum se tornou a senhora da fertilidade, recebendo o título de Mamãe Oxum. Segundo a lenda, ela foi a única orixá mulher enviada à Terra por Olodumaré e, por isso, menosprezada pelos orixás homens. Como resposta, Oxum retirou deles o dom da fertilidade, fazendo com que fracassassem na missão de povoar e trazer vida à Terra. Reconhecendo seus erros, os orixás recorreram às águas de Oxum em busca de ajuda. Após o pedido de perdão, ela aceitou colaborar, restaurando a fertilidade e garantindo a continuidade da vida, consolidando-se como protetora da prosperidade, da fecundidade e das mães com seus filhos.

A partir dessa base mitológica, a Barroca Zona Sul pretende desenvolver na avenida a relação de Oxum com os demais orixás, em uma narrativa que dialoga, em certa medida, com o enredo apresentado pela escola em 2025, dedicado a Iansã. Nos primeiros setores do desfile, o público será convidado a conhecer mais profundamente a história de Oxum, seu sincretismo religioso e os caminhos sagrados que a ligam à proteção das águas doces e ao amparo das mulheres que buscam a fertilidade.

*“O SAGRADO ATO, MOSTROU A SABEDORIA DO DEUS MAIOR E CONSOLIDOU A SUA RELIGIÃO.
SENTI NAQUELE INSTANTE QUE A MINHA MISSÃO ESTAVA CUMPRIDA, FELICIDADE FOI O SENTIMENTO,
SEGUI O CAMINHO DE VOLTA, ANDANDO POR CIMA DAS ÁGUAS PARA ETERNIZAR ESSE MOMENTO.
UMA HISTÓRIA DE RARA BELEZA, QUE REFLETE A MINHA PERSONALIDADE,
NÃO ACEITO ERROS, SOU A DONA DOS RIOS, SIMBOLIZO A FERTILIDADE, A RIQUEZA E A VAIDADE.
SOU FRUTO DO AMOR ENTRE O DEUS MAIOR E MINHA MÃE IEMANJÁ,
ETERNIZADA COMO A RAINHA DAS ÁGUAS DOCES E DOS PEIXES DO POVO YORUBÁ.
NAS MARGENS DO RIO SAGRADO, CONSTRUÍ MEU REINO ENCANTADO,
HABITO NA CALMARIA DAS ÁGUAS SUAVES E CACHOEIRAS,
ONDE ESPALHO MEU PODER ATRAVÉS DO CURSO DAS CORREDEIRAS.”*
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola

A escola também destacará a vaidade de Oxum e a forma como essas características se refletem em seus filhos, conhecidos pela elegância, pela sensibilidade, pela sedução e pela fertilidade. O enredo abordará ainda os rituais de devoção à orixá, mostrando que aqueles que buscam a fertilidade recorrem a Oxum por meio de oferendas específicas realizadas em suas águas sagradas — rios, fontes e cachoeiras — espaços que simbolizam sua força, seu cuidado e seu poder de geração da vida.

“EU SOU OXUM, A DEUSA MENINA, DONA DO OURO DA NAÇÃO IJEXÁ,
SOU O AZUL DA ÁGUA QUE ALIMENTA A VIDA E O ROXO DA MAIS VELHA ORIXÁ..GOSTO DE TUDO QUE É BELO E QUE EM MEUS OLHOS RELUZ,
UM FARTA OFERENDA IPETÉ, ALIMENTA MEU EGO, ME SEDUZ,
INDUMENTÁRIAS LUXUOSAS, PERFUMES E COLARES DE RARA BELEZA,
ACUMULEI TESOUROS, VIREI SÍMBOLO DE FARTURA E RIQUEZA.
INTENSA E DETERMINADA, VIVI GRANDES PAIXÕES, AMEI E FUI AMADA,
ATRAI O PODEROSO OGUM, COM UM TRUQUE DE SENSUALIDADE,
BAILEI COM MEU FILÁ SAGRADO, DEIXEI O GUERREIRO HIPNOTIZADO E O TROUXE DE VOLTA A CIDADE,
ALCANCEI COM ESSE ATO DE PURA MAGIA E BRAVURA, O RESPEITO DOS ORIXÁS,”
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola

O enredo também irá desenvolver os amores de Oxum e a importância dessas relações para o equilíbrio da natureza e da espiritualidade. Ganham destaque seus vínculos com Oxóssi, Xangô e Ogum, além de seu lado maternal, representado por Logun Idé, fruto de sua relação com Oxóssi. Nesse contexto, a escola se debruça sobre uma das lendas mais simbólicas envolvendo Oxum e Ogum.

Segundo o itã, Ogum, orixá ferreiro, guerreiro e caçador, sentindo-se menosprezado pela aldeia em que vivia, refugiou-se na mata para viver em isolamento. Sem Ogum, a comunidade passou a sofrer, pois faltavam ferramentas, caça e sustento. Diversas tentativas foram feitas para trazê-lo de volta, por meio de promessas ou ameaças, mas nada foi capaz de convencer o orixá.

Foi então que Oxum se ofereceu para cumprir a missão. Ridicularizada pelos demais, que a julgavam frágil e ingênua, ela seguiu sozinha para o interior da mata. Ali, Oxum dançou, espalhou seu perfume e encantou o ambiente. Ogum, oculto entre as árvores, observava em silêncio. Seduzido pela beleza e pela doçura de Oxum, acabou hipnotizado e a seguiu de volta à aldeia, onde permaneceu, restabelecendo o equilíbrio da comunidade.

A Barroca aposta, assim, em um desfile marcado pelo mistério e pela sensibilidade. Como as águas doces que escondem segredos em suas profundezas, a escola promete uma apresentação repleta de símbolos, significados e emoções, convidando o público a viver uma verdadeira experiência sensorial e espiritual. Refletida no espelho de Oxum, a escola busca, ao amanhecer, sua redenção e o sonho de voltar ao desfile das campeãs.

Veja a apresentação do samba-enredo da Barroca Zona Sul no Botequim da SASP.

Botequim da SASP