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‘Por dentro dos enredos’: Dragões da Real apresenta a história das Guerreiras Icamiabas na busca pelo primeiro título

Por Lucas Malagone
Imagens: Dan Santana e Diego Florêncio/SASP Carnaval

Em mais um capítulo da série ‘Por dentro dos enredos’, o destaque de hoje é a Dragões da Real, que entra na avenida em busca de seu título inédito no carnaval paulistano. Para alcançar esse objetivo, a escola aposta no trabalho do carnavalesco Jorge Freitas, em seu quarto ano à frente da agremiação, com o enredo “Guerreiras Icamiabas: Uma lendária história de força e resistência”.

O enredo apresenta a história das Guerreiras Icamiabas, figuras que habitam o imaginário dos povos indígenas como protetoras da floresta amazônica, de sua fauna, flora, riquezas naturais e dos povos originários que nela vivem. O desfile propõe um mergulho no universo místico da Amazônia, utilizando a força simbólica das icamiabas para revelar lendas, mitos e mistérios que atravessam gerações e permanecem vivos até os dias atuais.

Entre a lenda e a história, o enredo se aprofunda na origem das icamiabas, questionando se seriam fruto do imaginário coletivo ou se, de fato, existiram. Os registros mais conhecidos datam de 1542, quando o explorador espanhol Francisco de Orellana desceu o rio Amazonas em expedição e relatou o encontro com mulheres guerreiras. Segundo a narrativa, elas seriam altas, fortes, de pele clara e cabelos longos e negros, sendo imediatamente associadas às amazonas da mitologia grega. Para muitos historiadores, essa associação teria sido decisiva para o batismo da região como Amazônia.

“É noite de festa na floresta! A ancestralidade da aldeia ressoa ao som de tambores que agitam o ritual sagrado de celebração. Na Amazônia, solo que guarda segredos e mistérios, erguem-se, do leito do rio Nhamundá, numa dança de lodo, no sopro encantado de Iara, as Icamiabas — mulheres donas de seu destino e da natureza. Sua origem, ligada ao sagrado, mistura-se numa simbiose entre lenda e história, entre ficção e realidade. Vamos relembrar e celebrar a importância dessas mulheres guerreiras! Do leito do rio, onde se manifesta a natureza, o barro moldado expressa criatividade e arte. Em cada vaso esculpido há um traço da identidade dessa comunidade de mulheres, que atravessaram o portal espiritual, tornando-se eternas protetoras, guardiãs da natureza. Com arcos e flechas em mãos, defendiam a floresta dos invasores e predadores, tecendo assim sua nação, onde o vento sussurra nas entranhas da mata e as águas dos rios ecoam a força de Iara.”

* trecho extraído da sinopse oficial da escola

O primeiro setor do desfile se aprofunda nos rituais das guerreiras. As Icamiabas não tinham maridos fixos e não permitiam a presença masculina em seu território. Apenas uma vez por ano, recebiam os guerreiros Guacaris, preparando um grande banquete às margens do rio. Na noite de lua cheia, as guerreiras seguiam até as águas, onde derramavam perfumes e realizavam um banho purificador, rito que simbolizava fertilidade e renovação espiritual.

Após o ritual, confeccionavam os muiraquitãs, amuletos de proteção em forma de animais, tradicionalmente feitos de minerais da própria selva. Esses talismãs eram oferecidos aos parceiros como símbolo de sorte ou entrelaçados nos cabelos das noivas. Os encontros resultavam em uniões voltadas exclusivamente à procriação, restritas a esse período ritualístico. Após o nascimento, a decisão seguia os princípios de proteção dos povos e da floresta: os meninos eram entregues aos guerreiros para serem criados, enquanto as meninas permaneciam com as Icamiabas, garantindo a continuidade da linhagem das guerreiras.

“Na chegada da primavera, a ancestralidade impera, trazendo a espiritualidade para as terras onde reinam apenas mulheres. Maracás vibram, tambores ressoam na mata encantada, que se prepara para acolher os guerreiros Tupi, que vêm celebrar e consagrar do ritual sagrado. Curandeiras, xamãs, mulheres anciãs, preparam o ritual – elas são as responsáveis pela comunicação com a espiritualidade. O desabrochar das flores compõe o cenário de magia e marca o tempo da fertilidade: a primavera. É o único momento em que os homens são recebidos na aldeia onde reinam as guerreiras Icamiabas. Com tudo pronto, na escuridão da noite, a lua, que o céu clareia com sua face feminina, apresenta Jaci, que ilumina a mata, refletindo a força do luar. Na festa, corpos se encontram, numa troca de carícias e amor. O ritual sagrado acontece! A lama esverdeada, retirada das profundezas do rio, se encontra com o brilho das esmeraldas — pedras raras e preciosas —, fazendo reluzir as muiraquitãs, em formas de sapos, que emergem verdes na água e refletem segredos e mistérios. São amuletos que revelam as forças espirituais de seres mitológicos, que compõem o imaginário da floresta em seu constante renascimento. É rito de força, de bênção e vida: a alma da mata, jamais esquecida. O ritual termina apenas no raiar do dia!”

* trecho extraído da sinopse oficial da escola

A segunda parte do enredo evidencia a força e a bravura das Icamiabas na defesa e preservação do legado dos povos originários, especialmente diante da ameaça dos colonizadores que avançavam sobre a floresta para fincar suas bandeiras e saquear suas riquezas. Relatos da própria expedição de Francisco de Orellana registram confrontos diretos, nos quais seus homens teriam sido atacados e feridos por flechas, reforçando a imagem das guerreiras como protetoras das riquezas da Amazônia.

Segundo essas narrativas, as Icamiabas viviam matas adentro, em territórios abundantes em ouro e prata, retirando da própria terra e dos rios a base de sua subsistência e a fonte de sua força. Essa relação simbiótica com a floresta fortalece o caráter místico do enredo, que retrata as guerreiras como guardiãs de um patrimônio natural e ancestral ameaçado pela invasão estrangeira.

“Mas um dia, invasores destemidos em busca de ouro, cegos em sua jornada, movidos pela ganância, desbravaram as riquezas naturais da floresta. Para se proteger, as guerreiras Icamiabas se fundem com a floresta, num processo de metamorfose, criando um cenário de proteção. Como araras, elas vigiam e acompanham o avanço dos invasores. Como onças, elas seguem à espreita, silenciosas, prontas para o ataque feroz e fulminante. Como jacarés, elas repousam imóveis no leito dos rios. No momento em que os invasores avançam, serpenteando os rios e adentrando o emaranhado da mata, são surpreendidos pelas valentes Icamiabas, que resistem à invasão com bravura e coragem — e vencem a longa e dura batalha.”

* trecho extraído da sinopse oficial da escola

O último setor do enredo propõe uma reflexão direta e necessária: quem são, de fato, os verdadeiros donos dessa terra: os colonizadores ou os povos originários? A Dragões da Real convida o público a ir além da pergunta e assumir um compromisso com a proteção da floresta e a preservação dos rituais, culturas, línguas e do legado ancestral daqueles que habitavam a região muito antes de ser chamada de Amazônia e muito antes de o país se chamar Brasil. O desfile se encerra como um poderoso manifesto à ancestralidade indígena, exaltando a resistência, a memória e a permanência dos povos originários como pilares fundamentais da identidade brasileira.

“A força, a coragem e a bravura da nação Icamiaba foi associada às amazonas gregas, fazendo que o rio Nhamundá, com seus guardiões, localizado próximo ao combate, fosse batizado de Rio Amazonas. Hoje, a mata verde, que contava com a proteção das Icamiabas, segue sendo protegida por aliadas que continuam resistindo aos invasores e lutando para proteger a vida na floresta. São as herdeiras das mulheres lendárias que lutaram para defender a terra. São as responsáveis por manter viva a sua história, enraizada em cada batalha travada pela preservação do meio ambiente, por cada sangue derramado que se torna um grito de socorro clamando pela manutenção das matas. Os invasores foram ganhando outras formas, como o garimpo que continua a matar a floresta em nome do poder e da riqueza, porém, enquanto o espírito das Icamiabas permanece vivo em mulheres destemidas, como a irmã Dorothy Stang, que deram suas vidas em nome da proteção do coração do Brasil, o pulmão do mundo, coragem, resistência, luta e bravura não serão extinguidas. Hoje, a nossa escola cumpre seu papel ao lembrar ao mundo a história dessas mulheres, num verdadeiro tributo às guardiãs dos povos originários e às causas da floresta! Na esperança de um novo florescer, de um amanhã em que a vida pulsa com a consciência da harmonia entre o ser humano e a natureza, num verdadeiro santuário da mata, onde vivem as aliadas Icamiabas, sempre prontas a lutar e resistir.”

* trecho extraído da sinopse oficial da escola

Se as Icamiabas existiram de fato, se protegiam as matas ou se confeccionavam os muiraquitãs, são perguntas que talvez jamais tenham respostas definitivas. O que permanece incontestável é a força do mito e a maneira como essa narrativa atravessa o tempo, inspirando pessoas, especialmente mulheres, e não apenas da região amazônica, a se reconhecerem nela e a resistirem às opressões impostas pelo colonialismo e pelo pensamento ocidental.

No desfile, a Dragões da Real transforma essa simbologia em exaltação. Celebra as guerreiras, reverencia os povos originários e invoca a força da floresta como aliada na busca por um objetivo histórico: a conquista de seu primeiro título no Carnaval paulistano. A escola será a terceira a entrar na avenida na sexta-feira de carnaval, no Sambódromo do Anhembi.

Confira abaixo o samba-enredo da Dragões da Real no Botequim da SASP:

 

Botequim da SASP