Por Lucas Malagone
Imagens: Reprodução Internet
Dando sequência à série ‘Por Dentro dos Enredos’, hoje vamos conhecer o tema que a Mocidade Alegre apresenta para o carnaval deste ano. A obra, assinada pelo carnavalesco Caio Araújo, em seu segundo trabalho consecutivo na escola, e pelo enredista Leonardo Antan, traz para a Avenida “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”.
Léa Lucas Garcia de Aguiar nasceu em 11 de março de 1933, no Rio de Janeiro, e tornou-se uma das grandes pioneiras enquanto atriz negra no país, construindo uma carreira marcante no teatro, rádio, televisão e cinema. Sua trajetória artística teve início após o casamento com o dramaturgo e ativista Abdias Nascimento, com quem teve dois filhos. Foi ele quem a apresentou a um universo literário que incluía as tragédias gregas e a incentivou a subir ao palco pela primeira vez, na peça “Rapsódia Negra” (1952), encenada pelo Teatro Experimental do Negro. A partir dali, Léa descobriu sua vocação e iniciou uma carreira brilhante, marcada por talento, resistência e representatividade.
A proposta do enredo é mergulhar na vida e na obra da atriz que rompeu barreiras e conquistou papéis que, até então, não eram destinados às mulheres negras. O primeiro setor aborda justamente seu encontro com Abdias e a estreia nos palcos. Em seguida, o desfile destaca sua atuação na peça e no filme “Orfeu Negro”, no qual interpretou personagens diferentes: Mira, no teatro, e Serafina, no cinema. Sua performance nas telas lhe rendeu indicação ao prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes, em 1957, reconhecimento internacional que consolidou seu nome na história da dramaturgia.
“Laroyê, é noite de estreia! Ecoa o primeiro sinal. O orixá da comunicação pisa forte sobre as tábuas e nos abre caminho. Com seu tridente, o mensageiro dá as três batidas que marcam o início do nosso espetáculo. É hora de subir no palco, encarar a plateia em sua escuridão de formas e cores. Os três toques não só marcaram o início de tantas peças mundo afora, mas também a estreia de uma das grandes deusas das artes brasileiras.
Em cena, Léa Garcia.
Após subir nas tábuas pela primeira vez, uma forte transformação estava em curso. Não só os sonhos da jovem seriam transformados após aquela experiência, mas também toda a cena teatral brasileira. Sob as luzes da ribalta, um elenco totalmente negro, capitaneado por Abdias do Nascimento. Era o Teatro Experimental do Negro, fundado em 1944, para reivindicar o lugar de protagonismo e discutir o preconceito racial da sociedade. A partir de então, foram novos rumos em um país que encarava de camarote o seu próprio preconceito. Nesse palco, nada de douramentos ou musa de mármore, mas a força da riscadura afro-brasileira marcando o chão”.
* trecho extraído da sinopse oficial da escola
Na televisão, Léa Garcia acumulou inúmeros papéis de destaque ao longo de décadas de carreira. Sua trajetória começou na TV Tupi, no programa Grande Teatro, onde permaneceu por mais de dez anos e chamou a atenção do autor Dias Gomes. Mais tarde, já na TV Globo, integrou o elenco da novela “Assim na Terra como no Céu”, interpretando Dalva, empregada do personagem de Jardel Filho. Na trama, ele inventa que Dalva era uma princesa de Tobocobucu, passando a levá-la para festas da alta sociedade, numa crítica bem-humorada às estruturas sociais e raciais da época.
O grande marco de sua carreira na televisão, no entanto, foi a novela “A Escrava Isaura” (1976), fenômeno nacional e internacional. Na trama, Léa viveu a vilã Rosa (Duda), personagem que lhe trouxe enorme projeção, mas também episódios de preconceito e hostilidade, incluindo perseguições e agressões nas ruas, tamanha a força de sua interpretação. Outro papel relevante foi na novela “Marina” (1980), de Wilson Aguiar Filho. Como professora de História em um tradicional colégio paulistano, sua personagem enfrenta o preconceito sofrido pela filha e encontra espaço para apresentar ao público a verdadeira história de Zumbi dos Palmares, reforçando o compromisso de Léa Garcia com a valorização da memória e da identidade negra na dramaturgia brasileira.

“Da coxia para o estúdio, sob os holofotes e câmeras, Léa deu vida a mulheres que revelam uma outra história do nosso país, construída pelo afeto e força. Consciente de sua raça, tão discriminada, riu de quem disse que não poderia ser artista. Pois, afinal, nessa ciranda de vaidade, qual papel ainda cabe às mulheres negras?
Uma presença que nunca foi ausência. Já que, em cena, cabia o mesmo lugar servil. Léa não coube nas formas prontas que lhe foram impostas. Deu verdade e coragem a qualquer personagem que interpretou, virou protagonista. Desabrochou como Rosa, em “Escrava Isaura”, seu cartão de visitas. A negra que reivindicava seus direitos, uma ativista. A antagonista da novela mais vista no mundo.
Em uma profícua carreira, trouxe em sua arte a problemática dos negros e seus papéis: Lutou como uma guerreira no “Quilombo”, ao lado de “Ganga Zumba”.Trouxe Zumbi para a sala de estar de milhões de brasileiras na telenovela “Marina”. Nas novelas de época, frequentou “Casa-grande e Senzala”. Se libertou com os romances inconfidentes de “Xica da Silva” e “Chico Rei”. Onde não havia oportunidade, construiu seu lugar a duras penas. Quem disse que no paraíso não tem negros? Quem disse que seu lugar é na cozinha?
Trouxe ainda o ensinamento das mães de santos. A bênção, Yabás! Mães do mundo, orixás da água, do ventre e da criação. Fluxo e refluxo nas águas salgadas de Iemanjá. Dos ensinamentos das matriarcas, aprendeu sobre passado e futuro. Quem não sabe de onde veio, não sabe para onde vai. Trouxe no seu marcante olhar a chama da ancestralidade, da coragem e transformação. Para fazer a revolução definitiva, não bastou ver a negritude nos palcos, precisavam estar também nos bastidores. Cumprindo assim a profecia do dramaturgo Eugene O’Neill, em carta ao Teatro Experimental do Negro, para que uma nova tomada de consciência precisávamos não só de papéis para negros, mas também dramaturgos e diretores negros.”
* trecho extraído da sinopse oficial da escola
No cinema, o desfile destacará produções como “Filhos do Vento” e “Um Dia com Jerusa”, filme pelo qual foi premiada no Festival de Gramado e que marcou um feito histórico: Léa atuou sob a direção de Viviane Ferreira, a primeira diretora negra a comandar um longa-metragem de ficção no Brasil. Obras que reafirmam sua longevidade artística e seu compromisso com narrativas que valorizam a identidade e a ancestralidade negra. A Mocidade também vai se debruçar sobre outros trabalhos marcantes da atriz nas novelas “Selva de Pedra”, “Xica da Silva” e “O Clone”, evidenciando sua trajetória de resistência e a luta constante por papéis de relevância e por uma representação mais justa e digna da população negra na teledramaturgia brasileira.
Um dos pontos altos do enredo será seu papel na novela “A Viagem”, de Ivani Ribeiro. À época, Léa questionou a ausência de pessoas negras na representação do plano espiritual, o “Nosso Lar”, e acabou integrada à trama como a personagem Natália. O episódio inspira um dos versos do samba-enredo: “Sob a luz das yabás, todo preto vai pro céu”, sintetizando a força simbólica de sua atuação e o diálogo entre espiritualidade, representatividade e justiça racial que a escola pretende levar para a Avenida.
“Estamos na luta, sigamos fazendo revolução. Saudamos Léa como nossa malunga, companheira de luta, dando a ela toda honra e glória merecidas. A história do nosso país é feita por pessoas que não sabemos o nome. Por isso, é missão da nossa escola resgatar seu legado, trazer à cena mais uma figura feminina negra de relevância internacional. É noite de premiação, oferecemos o trófeu Oscarito do Samba. Em glória, adentramos mais uma vez na passarela cultural Grande Otelo, para celebrar e oferecer a maior honraria que um brasileiro pode alcançar, na Avenida que coroa sonhos e não admite esquecimentos. Nessa rapsódia épica, saudamos nosso farol a nos guiar para um futuro ancestral. Arroboboi!”
* trecho extraído da sinopse oficial da escola
Léa Garcia nos deixou em 2023, aos 90 anos, mas sua presença permanece viva na memória da cultura brasileira. Para encerrar o desfile, a Mocidade Alegre prepara uma grande homenagem à atriz, celebrando não apenas sua trajetória, mas também o legado construído ao lado e em favor de outras mulheres negras nas artes. A escola pretende exaltar nomes que, assim como Léa, abriram caminhos e fortaleceram gerações, como Ruth de Souza, Zezé Motta, Neusa Borges, Elisa Lucinda, Isaura Bruno, Zeni Pereira, Arinda Serafim e Marina Gonçalves, além de destacar artistas que seguem dando continuidade a essa história, como Taís Araújo, Duda Santos, Clara Moneke e Jéssica Ellen, entre outras. Um tributo que conecta passado, presente e futuro da representatividade negra na dramaturgia brasileira.
Saudando quem veio antes e reverenciando quem mantém essa chama acesa, a Mocidade transforma a Avenida em palco de consagração. Um desfile que celebra a memória, reconhece a luta e simbolicamente entrega o grande prêmio a uma das maiores artistas que o Brasil já teve, reafirmando que sua arte permanece eterna e cada vez mais livre de preconceitos. A Mocidade Alegre será a terceira escola a desfilar no sábado de carnaval, no Sambódromo do Anhembi.
Confira abaixo o samba-enredo da Mocidade Alegre no Botequim da SASP: