Por Lucas Malagone
Foto: Felipe Araújo/Liga-SP
Dando sequência à nossa série ‘Por dentro dos barracões’ do Grupo Especial, o destaque de hoje é a Império de Casa Verde. Responsável por abrir os desfiles do sábado de carnaval, a escola, que terminou na 11ª colocação no último carnaval, apresenta uma proposta completamente diferente da exibida no ano anterior. Com o enredo “O Império dos Balangandãs”, a agremiação busca retomar seu lugar entre as grandes forças do samba paulistano, explorando a religiosidade e os significados dos diversos tipos de amuletos presentes em diferentes culturas ao redor do mundo.
O enredo é assinado pelo carnavalesco Leandro Barboza, que chega ao seu quinto desfile à frente da escola, com sinopse desenvolvida por Thiago Freitas. A proposta pretende revelar a história, a importância simbólica e o caráter religioso dos balangandãs, joias negras de origem afro-brasileira. Mas, afinal, o que são os balangandãs em sua essência?
Trata-se de joias produzidas principalmente durante o período escravocrata no Brasil, com forte concentração em Salvador, na Bahia, onde se tornaram patrimônio cultural do estado. Utilizados como instrumentos de proteção, os balangandãs também funcionavam como talismãs e amuletos, associados à atração de saúde, amor e sorte. O termo “balangandã” tem origem banto e apresenta diferentes interpretações, sendo a mais aceita a de uma palavra onomatopaica, que remete ao som produzido pelos adornos ao se chocarem, estabelecendo uma relação direta entre som e significado.
A partir desse contexto, o enredo tem início na Bahia de 1760, narrando a origem dessas joias e, na sequência, seu desenvolvimento social, religioso e simbólico. A narrativa tem como figura condutora Dona Fulozinha, que apresenta os balangandãs como ferramentas de luta e resistência em meio ao regime escravocrata ainda vigente no país. Mais do que adornos, essas joias carregavam a riqueza cultural do povo negro e representavam um esforço de preservação da identidade e da memória frente à opressão e à tentativa de apagamento histórico.
O desfile também retrata os processos de confecção e comercialização dos balangandãs. As chamadas escravas de ganho percorriam a cidade vendendo mercadorias para seus senhores, mas guardavam parte do dinheiro que conseguiam — nos bolsos, nos cabelos ou junto ao corpo — como gesto silencioso de resistência. Com o auxílio de ourives clandestinos, esse ouro era transformado em anéis, pulseiras, braceletes, argolas e figas, que circulavam entre os cativos nas senzalas, simbolizando união, proteção espiritual e a luta pela sobrevivência cultural.
“Giram os mundos, rodas se abrem, da escuridão nasce os primeiros clarões, o grande sopro cósmico anuncia a fênix que faz tudo nascer em fogo, para renascer em ouro.
Giram os mundos, o sopro ancestral explode em ouro cósmico, que aporta em São Salvador.
SALVADOR me chamou.
Século XVIII, 1760, Salvador.
Salvador me chamou. Eu sou Dona Fulô, a escrava que comprou a liberdade.
Nos idos de 1760, eu e muitas mulheres éramos escravas de ganho. Ganhar era comercializar com tabuleiros de quitutes, peixes, tecidos e turbantes a mando dos senhores brancos. Quando atingíamos o lucro de mando, o valor que passava, ficava em nossos bolsos, ou melhor, em nossos corpos negros.
A gente subvertia a ordem e adornava de ouro nossos corpos negros.
Nos ventos de clandestinidade, procurávamos ourives de axé que, escondidos, faziam joias para nós, mulheres negras que sonhavam em guardar o ganho em joias de adornos. Assim, as joias eram como roupa e o nosso corpo, era como um cofre ancestral que exalava poder e um sonho de liberdade.
Os ourives moldavam nossos corpos com ouro em anéis de talha dourada, figas, pulseiras de placas, argolas que se pareciam com pitangas, braceletes de ouro e outros artefatos mais”
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola
Na sequência, o desfile evidencia a importância dessas joias para os negros que circulavam com seus balangandãs, verdadeiros gritos de resistência e símbolos de conexão com a África ancestral. Todo o enredo se desenvolve tendo a Bahia, e especialmente Salvador, como pano de fundo, local onde os balangandãs se consolidaram como patrimônio histórico e cultural. A relação desses adornos com a sorte, a proteção e a espiritualidade, profundamente ligada à identidade da cidade, será amplamente explorada e narrada ao longo do desfile na avenida.
“Nossas joias também eram adornadas como acarajés de ouro, bolinhos de fogo que pulsavam como nossa joia-amuleto de corpo, alma e espírito.
Um delírio de emoções explodia na Salvador que eu e muitas outras negras, em busca da liberdade, chamávamos de Salvador do Império das nossas joias negras, as joias das crioulas que queriam viver a paz de seu axé em voo livre.
Quando a saudade de África transbordava e nossos olhos não suportavam o mar de lágrimas, além dos tambores de axé, íamos à igreja rezar para aclamar mais força de espírito. Também tratamos de fazer joias com símbolos católicos, adornamos joias com a pomba do divino, a cruz, o sino e o terço de Santa Maria. Maria nos atendia, por isso, eu e outras mais fundamos e ajudamos a manter a Irmandade da Boa Morte, movimento que pregava a morte digna de negros e negras que sofriam no suor da escuridão e do esquecimento.
Salvador me chamou. E chamou outras negras mais! Salvador da maior balangandeira, Tia Ciata, que batucava seus quadris com a sonoridade desses amuletos de joias de nossa gente.”
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola
Por fim, a escola destaca o legado e a herança ancestral, passando por figuras emblemáticas como Tia Ciata e chegando às mulheres negras baianas da atualidade. O desfile exalta a resistência e celebra a forma como o povo negro foi capaz de transformar a dor e a violência daquele período histórico em beleza, identidade e afirmação cultural. Nesse percurso, os balangandãs surgem como símbolos de liberdade e dignidade, ressignificados ao longo do tempo em meio a um contexto marcado por profunda opressão.
“Salvador me chamou. E chamou outras negras mais! Salvador das negras Amas de leite, que empreendiam, mesmo forçadas, doses de amor e afeto. Em troca, eram alimentadas de doses de ouro.
Salvador. Minha Salvador, de Fulô e todas as negras de ganho que faziam da sua força de trabalho a realização de viver um sonho: de ser livre!
Salvador, de Dona Fulô, de Florinda Anna do Nascimento!
Das joias, fizemos livretude!
Fizemos amuleto espiritual!
Fizemos cofre em um corpo ancestral!
Das joias, fizemos reza, fizemos força, fizemos vida, fizemos a força e o grito-ganho de LIBERDADE.”
* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola
A Império de Casa Verde será a primeira escola de samba a desfilar no sábado de carnaval, no Sambódromo do Anhembi.
Confira abaixo o samba-enredo da Império de Casa Verde no Botequim da SASP: