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Por dentro dos enredos: Em sua estreia no Grupo Especial, MUM exalta a força da mulher negra e a história do Instituto Geledés

Por Lucas Malagone
Imagens: Dan Santana e Diego Florêncio/SASP Carnaval

A SASP inicia nesta terça-feira (20) a série ‘Por dentro dos enredos’, que apresentará conteúdos especiais destrinchando os 14 enredos do Grupo Especial, além de conteúdos dedicados aos Grupos de Acesso 1 e 2. E a primeira escola é justamente a estreante na elite do carnaval paulistano: a Mocidade Unida da Mooca.

Sob a liderança do presidente Rafael Falanga, a MUM faz sua aguardada estreia na elite do carnaval paulistano com o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”. Primeira escola a lançar oficialmente enredo e samba para o carnaval, a agremiação aposta novamente em um desfile de forte impacto cultural e social, marca já consolidada de sua trajetória recente.

Assinado pelo carnavalesco Renan Ribeiro, com desenvolvimento da enredista Thayssa Menezes, o enredo tem como eixo central a história e a atuação do Instituto Geledés, referência nacional na luta pelos direitos das mulheres negras. Fundado em 30 de abril de 1988, em São Paulo, o instituto atua há 37 anos na proteção, promoção e valorização das mulheres negras, tornando-se uma das mais importantes organizações da sociedade civil no Brasil.

O nome Geledés tem origem iorubá e designa uma irmandade feminina de caráter religioso que simboliza o poder das mulheres sobre a fertilidade da terra, a procriação e o bem-estar coletivo. Inspirado nesse conceito ancestral, o instituto foi fundado por Sueli Carneiro, Edna Roland, Solimar Carneiro, Nilza Iraci, Ana Lúcia Xavier Teixeira e Maria Lúcia da Silva, tendo como missão central o enfrentamento ao racismo e ao sexismo. Sua diretoria é composta exclusivamente por mulheres negras, embora suas ações envolvam homens e mulheres, negros e brancos, em diferentes frentes de atuação.

Na avenida, a MUM promete destacar os projetos emblemáticos do instituto, como o S.O.S. Racismo, o Projeto Rappers, o Concurso Plano de Aula e o curso Promotoras Legais Populares, além de sua atuação em instâncias internacionais, como a ONU. Mais do que retratar a trajetória institucional, o enredo propõe uma narrativa ampla e profunda sobre a história da mulher negra. 

A escola utilizará o Geledés como fio condutor para revisitar séculos de luta, dor, resistência e resiliência, desde as comunidades iorubás na África, passando pela diáspora forçada, a opressão no Brasil, a religiosidade, a construção cultural e a permanente afirmação de identidade e protagonismo.

Abrindo os desfiles do Grupo Especial, a MUM promete transformar a avenida em um espaço de reflexão, celebração e afirmação, levando para o sambódromo uma verdadeira ode à força ancestral e contemporânea da mulher negra.

“É por esse espelho mítico que iniciamos nossa travessia, mergulhando na África matriz, onde Odùdówà e Òbátálá disputam a primazia da criação, e o ventre da Terra revela que toda origem é feminina.

Do seio da África ao sal do Atlântico, seguimos com aquelas que atravessaram oceanos – não como náufragas, mas sendo o próprio mar. Estamos conectadas, somos atlânticas. Cada passo nosso é continuação de um percurso ancestral que segue ecoando por todos os cantos do mundo.

Atravessamos o tempo com elas, gestando ideias, parindo saberes, criando filhos e frutos, organizando comunidades e coletivos, e reescrevendo histórias que foram apagadas. Somos filhas de uma travessia que nunca terminou, mas que se transforma a cada nova geração que se reconecta, reconhece e retoma o seu caminho de volta pelo mar.

Em seus corpos-territórios, a marca da travessia; em suas almas, o axé das Yàbás – divindades que são força justiça, ternura e revolução. Oxum, Yemanjá e todas as orixás caminham com as mulheres negras que fizeram do Brasil o seu terreiro, o ilê asé onde os toques dos tambores e os pés no chão nos reconectam à experiência do bem viver africano. Nas danças, nos cantos, nas folhas e nos rituais, elas recriam o mundo todos os dias”.

* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola

Na sequência, o enredo se aprofunda na trajetória da mulher negra em terras brasileiras, do período de escravidão aos desafios do pós-abolição. A narrativa evidencia as dificuldades enfrentadas em uma sociedade estruturalmente machista e racista, marcada pela hegemonia branca, e destaca a luta contínua pela conquista de espaços por meio da música, da arte e da cultura. 

O desfile dará ênfase a personalidades históricas e contemporâneas que simbolizam essa resistência, chegando ao tempo presente, em que a mulher negra conquista voz e protagonismo, mas ainda enfrenta o peso do preconceito e do constante questionamento por ser mulher e negra. É nesse ponto que o enredo estabelece, de forma direta, a conexão com o Instituto Geledés, evidenciando o trabalho desenvolvido pela entidade na promoção, no fortalecimento e no sentimento de pertencimento dessas mulheres na sociedade brasileira.

“Aqui, no chão do Brasil, florescem irmandades forjadas na fé e na luta. Mulheres negras reunidas em torno da espiritualidade, da memória, da autoproteção e da resistência: Irmandade da Boa Morte, Filhas de Gandhy, o Movimento de Marisqueiras de Sergipe… São quilombos vivos, onde tradição vira abrigo e o sagrado habita o cotidiano. Como Laudelina de Campos Melo, que da lida fez luta; como as Mães de Maio, que da dor fizeram justiça, como tantas outras que bordaram com coragem o direito de existir com dignidade e a esperança de plantar futuros.

E assim chegamos ao agora – ao grito que se faz verbo, à memória que se recusa a ser esquecida. Geledés: nome atribuído ao Instituto, eco de um culto, sopro das vozes-mulheres que seguem organizando revoluções. Fundado por mulheres negras e guiado por vozes potentes, o Instituto resgata e renova o legado das Mães Ancestrais.

É voz que denuncia, é mão que acolhe, é a ponte para o amanhã. Como nos ensina Conceição Evaristo, cada mulher negra carrega as insubmissões da sua própria existência – sua trajetória e sonhos moldam os contornos de um novo mundo”.

* trecho extraído da sinopse oficial divulgada pela escola

A Mocidade Unida da Mooca será a primeira escola a desfilar na sexta-feira de carnaval, no Sambódromo do Anhembi.

Confira aqui o samba-enredo da Mocidade Unida da Mooca durante o Botequim da SASP:

 

Botequim da SASP